terça-feira, fevereiro 21

Arte privada





Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso

como se de uma arte privada se tratasse.


A ti, a quem falo de poesia, a ti

que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,

respondo-te que também eu não compreendo,

que não há que compreender,

porque nada nos condena à fala

antes que as palavras aconteçam.


Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho

e nunca terminado: um princípio de verão,

a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas.


A rua de dia de semana

e o arquipélago da solidão despertando

para as poucas coisas que procuro

e que o poema irá entretecer

se entretecer. -

A virtude que, cega,

vai conhecendo o seu caminho.


Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,

e se ficamos tristes não era para ficarmos,

pois não existem momentos irrepetíveis.

Eles aninham-se no sangue

e voltam a mergulhar-nos na experiência:

um dia de verão, um bosque, colinas

onde a serpente de alcatrão se enrola.

A ausência de tráfego como motivo.


A pouco e pouco vou recuperando a gravura.

Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,

pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,

nos meus poemas. Que havia água,

o cheiro das inusitadas chuvas

pela manhã de Junho.


O rumor da imagem colado aos dedos.

O ocre escuro das areias espalhado na mesa

é um símbolo da infância,

mas não o reconheço ainda.

O poema é uma enumeração que não teve lugar,

que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,

não o reconheço ainda.


Enquanto isso tem lugar em mim o advento

do que me define,

e o barro de que sou feito coze por dentro.


Luis Quintais, de A Imprecisa Melancolia, in Anos 90 e Agora- Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa, pag. 149,150,  QUASI, 2001

1 Comment:

cs said...

que bem que ele escreve :)