quarta-feira, fevereiro 15

Não disse nada, amor,





Não disse nada, amor, não disse nada:

foi o rio que falou ...com a minha voz

a dizer que era noite e é madrugada

a dizer que eras tu e somos nós.


A dizer os mil rostos e Lisboa

ao longo do teu rosto se te beijo.

À luz de um pombo chamo Madragoa

e Bairro Alto ao mar se te desejo.


Não disse nada, amor. Juro, calei-me:

foi uma voz que ao longe se perdeu.

Cuidei que era Lisboa e enganei-me

pensei que éramos dois e sou só eu.


António Lobo Antunes
imagem: Peter Turnley

3 Comments:

TERESA SANTOS said...

Obrigada Marta. É que muitos desconhecem esta faceta de LA.
A admiração que tenho por este Homem e pela sua escrita!

Abraço.

Zaclis Veiga said...

ai que delícia! Lindo minha linda. beijos

Ana Isabel said...

levei este poema até ao hálito azul da tarde...este homem esmaga-me literalmente.