segunda-feira, fevereiro 28

Partir

«Ele sabia que já ninguém partia pelo mar e isso deixava-o triste.
Para ele não havia partidas nem despedidas sem mar, muito menos chegadas.
É uma banalidade partir para fora, empurrado para o interior de pássaros de ferro e depois desaparecer no meio do céu azul, com e sem nuvens.
Foi por isso que andou a cirandar rente ao cais e a perguntar onde se podia arranjar emprego como tripulante, de qualquer barca, um cargueiro, um graneleiro ou outra coisa qualquer, desde que estivesse distante das cidades ambulantes que atracavam em Lisboa, diariamente. Falaram-lhe de duas ou três empresas rente ao Cais Sodré.
Apontou os nomes.
Queria e precisava de partir. Estava farto de ser ninguém, de não ter um trabalho com um ordenado decente. Mas estava ainda mais cansado do ambiente pesado que o rodeava, empestado de lamuria, inveja,vaidade, incompetência e falsidade, que faziam do seu emprego um "teatro" muito mais trágico que cómico.»

Luís Milheiro

imagem: Cláudio Dantas
[desviado daqui. com grande dificuldade...mas depois vou buscar o cartaz...e não só...]

1 Comment:

Djabal said...

Ainda outro dia, escrevi alguma coisa, a que dei o nome: "Se ele parasse, acabaria descobrindo como ele é triste."
De outro lado, compartilho do mesmo sentimento quanto aos pássaros de ferro, que eu chamei: Caixa com ratos.
Os dois fatos, partir e porto, foram conectados com perícia pelo Luís, e escolhidos pelo seu gosto tão parecido.

Haja bem.