quinta-feira, fevereiro 17

Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice

Poema desviado daqui.

5 Comments:

josé luís said...

;)
{muito curiosa é a fotografia escolhida, pois vejo sempre os relógios de xadrez quando leio este poema :), ou seja, confirma-se o que costumo dizer: na poesia, uma palavra vale mil imagens}

Marta said...

...curioso... mesmo!

:)

Funes, o memorioso said...

Desculpem lá, mas o que deduzo do Vosso comentário é que, na poesia, as palavras valem uma só e mesma imagem.
A mim, o que me chamou a atenção é que os relógios não são os relógios usados nos jogos de xadrez, mas despertadores clássicos. Como se os jogadores corressem o risco de adormecer e precisassem de ser acordados.

josé luís said...

... mas é exactamente por os relógios serem imaginados de modo diferente por cada leitor, que a palavra vale mil imagens ;)

Marta said...

:))))

...não deduza, querido Prof. Funes!
...sexta-feira nunca é um bom dia para deduções!