domingo, fevereiro 6

A ponto de nós termos sido música somente?


A música é só música, eu sei. Não há outros termos em que falar dela a não ser que ela mesma seja menos que si mesma. Mas o caso é que falar de música em tais termos é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem mostrá-lo ou sem sequer havê-lo visto alguma vez. Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto, nenhum silêncio recolhido nos persiste além de alguns minutos. E não dura na memória como o silêncio. Ou, se dura, esse silência cala a própria música que adora. Porque a música não é silêncio mas silêncio que anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio, e sim a inteligência que no abstracto busca ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas; se tudo se organiza como a variada imagem de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos que os grupos, e os grandes números, e as proporções conhecem necessários; se tudo se repercute como em cânones cada vez mais complexos que não desen- volvem um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras esculpidas em volutas brancas e douradas cujos recantos de sombra são um trompe-l'oeil para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de bater nas teclas em cascatas de ordem; e se tudo existiu na música para tal triunfo e dele descende tudo o que de arquitectura possa existir em notas sem sentido -COMO não proclamar que essa grandeza imensa não é não se comove com íntimos segredos ( mesmo implica que não haja segredo em nada que se faça a não ser o espanto de fazer-se aquilo), é como que uma cúpula de som dentro da qual possamos ter consciência de que o homem é, por vezes, maior do que si mesmo. E que nada no mundo, ainda que volte ao tema inicial, repete o que só foi proposto como tema para se transformar no tempo que contém. Quando, no fim, aquele tema torna não é para encerrar num círculo fechado uma odisseia em teclas, mas para colocar-nos ante a lucidez de que não há regresso após tanta invenção. Nem a música, nem nós, somos os mesmos já. Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga, para sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque o virtual de um pensamento se tornou ali uma evidência: se tornou concreto.
Um concreto de coisas exteriores -- e o espanto é esse -- igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam. Será que alguma vez, senão aqui, aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto de real e virtual serem idênticos, e de nós não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de nós termos sido música somente?»
Jorge de Sena, Bach: variações Goldberg, Arte de Música (1968)

Desviado [no dia certo] daqui

4 Comments:

sem-se-ver said...

fiquei TAOOOO contente! oh marta, mesmo! finalmente alguém a dar por o meu mote no blog, a minha poesia no blog, o meu sena no meu blog!

fiquei tão feliz :)))

Marta said...

pode ser o nosso Sena? que assim ninguém se zanga :)))

[já o li muitas vezes lá, mas hoje foi o dia certo para o trazer comigo. coisas minhas!]

sem-se-ver said...

(F)

Marta said...

(F)?

de...

feliz
fácil
falua [adoro esta palavra]
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fenómeno
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fulano
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