domingo, abril 3

O gato lembra-se sempre de ti nos intervalos


O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas.

Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio  de um pequeno quarto recuado.
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato e eu.

Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portas de vagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu.

Maria do Rosário Pedreira in A Casa e o Cheiro dos Livros, pag. 36, Gótica, 2002

imagem: Carla Salgueiro

2 Comments:

josé luís said...

sempre um delícia, a escrita de m.r.p.

(uma pena que ande preguiçosa:
http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/57608.html)

yoxorote said...

excellent articles, useful for me. keep writing and happy blogging.

generic cialis