quarta-feira, abril 20

In case of loss, please return to... [ parte 2]


Nessa noite sonhei com anjos e cineastas numa dura batalha. Depois, passaram-se mais alguns dias em que me ia convencendo, acordada, de que a vitória seria dos realizadores de cinema. E o telefone tocou, anunciando-me exactamente o contrário.
 - Olá. Perdeste a tua agenda. Está comigo.
Agradeci repetidas vezes, de diversas formas, até se voltar a fazer um pequeno silêncio.
- Falas francês, perguntou?
- Não.
- Onde estás?
- Em Bruxelas e tu?
- Também. Posso deixar a agenda em algum lugar, se quiseres.
 - Dá-me uma sugestão, vou lá buscá-la... Já sei. Uma livraria. Conheces a livraia Orfeu, uma livraria...?
- Sim, a que horas?
 -Cinco, está bem?
 - Sim, disse, lacónico, e desligou, depois de um. ok. bye.
Fiquei sem perceber se deixaria lá a agenda ou se estaria lá com a agenda. De qualquer forma, sentei-me a escrever um bilhete para entregar contra a recuperação do Moleskine Diary. Ainda me parecia não ter agradecido o suficiente, sobretudo de não ter revelado bem a minha gratidão. Escrevi em inglês e, depois, pedi a uma amiga belga para me traduzir o agradecimento para francês. Meia dúzia de linhas que passei a limpo no computador, nos dois idiomas, imprimi, dobrei a folha e meti-a dentro de um livro, na carteira.
Enquanto me dirigia para a Rue du Taciturne, pensei que poderia haver mais do que uma livraria com aquele nome, pensei em mil desencontros físicos e de linguagem. Pensei que não faria sentido deixar um bilhete a uma pessoa que mesmo deixando lá a agenda, não voltaria lá a buscar um bilhete que desconhecia ter ficado lá. Pensei em enviar uma mensagem para o número que tinha gravado a dizer que iria deixar um bilhete. Enquanto caminhava, a cada passo, ocorria-me uma ideia diferente.
Estavam duas pessoas na livraria. Detive-me em frente de alguns livros, olhei em volta e na falta de algum sinal, dirigi-me ao balcão para perguntar se alguém tinha entregue uma agenda. Após indagação, não. Não havia nenhuma agenda à minha espera. Dirigi-me para a porta sem saber imediatamente o que fazer. Espero, telefono, telefono, espero. E um homem alto, muito alto, de cabelos grisalhos e encaracolados pôs fim às minhas dúvidas, quando, mesmo à porta, perguntou, Marta?
Fiquei tão contente que pensei, se não fosses tão alto dava-te um abraço.
Mas disse, muito obrigada. Estava a pensar em ligar-lhe.
Retirou a agenda do bolso, de um casaco muito confortável, e deu-ma.
Disse outra vez muito obrigada. E ele disse:
- Bom, não fui eu que a encontrei. Foi a minha a minha irmã, quando a levei ao aeroporto.
- O importante é que ligou. Foi muito gentil em ter tido esse cuidado.
- Na verdade, eu não ligaria. A minha irmã é que insistiu para que ligasse. Disse que a agenda tinha muitas coisas escritas e que podiam ser importantes. Já tenho a agenda comigo há quatro dias. A minha irmã já me ligou duas vezes a perguntar se eu tinha telefonado a dizer que tinha a agenda.
- Mesmo assim, estou imensamente agradecida. Entregue, por favor, este bilhete à sua irmã. Afinal, em parte, é a ela que devo a recuperação da agenda. E sim, para mim, é muito importante tê-la de volta.
Fez-se outro pequeno silêncio, mas não tão silencioso como o que aconteceu ao telefone, porque havia os gestos. Eu a esticar a mão para me despedir, ele a olhar em volta como se eu fosse um pássaro.
- E o café? A minha irmã disse que eu podia ficar com a recompensa, se telefonasse.

6 Comments:

Anónimo said...

Sabes, consegui ver tudo a acontecer, o homem alto a falar contigo sem olhar para ti, como se fosses um pássaro :)))
P:

josé luís said...

... só não percebi se foi, como muitas vezes acontece, a realidade a suplantar a ficção... ;)

MCS said...

Gostei bastante.
O café em Bruxelas deve ser caríssimo ;-)

Marta said...

...um abraço, aliás, 3 abraços :)

redonda said...

E o que aconteceu a seguir?

Marta said...

a seguir...não escrevi mais :)