domingo, abril 10

Poema destinado a haver domingo


Bastam-me as cinco pontas de uma estrela

E a cor dum navio em movimento

E como ave, ficar parada a vê-la

E como flor, qualquer odor no vento.


Basta-me a lua ter aqui deixado

Um luminoso fio de cabelo

Para levar o céu todo enrolado

Na discreta ambição do meu novelo.


Só há espigas a crescer comigo

Numa seara para passear a pé

Esta distância achada pelo trigo

Que me dá só o pão daquilo que é.


Deixem ao dia a cama de um domingo

Para deitar um lírio que lhe sobre.

E a tarde cor-de-rosa de um flamingo

Seja o tecto da casa que me cobre


Baste o que o tempo traz na sua anilha

Como uma rosa traz Abril no seio.

E que o mar dê o fruto duma ilha

Onde o Amor por fim tenha recreio.


Natália Correia in Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999

imagem: Renata Pedrozo

4 Comments:

cs said...

E é o que queremos, ser o recreio :)

Funes, o memorioso said...

Comecei a ler o poema (que não conhecia) já com vontade de o desfazer. À medida que o ia lendo, contudo, ia engolindo a minha vontade escárnio e mal dizer. Ora aqui está um poema digno desse nome - ia eu pensando. Tão distante do comum alinhar de frases sem significado que tanto se cultiva na poesia de todos os tempos. Depois, cheguei ao fim e, agradavelmente surpreendido, fui ver quem era o autor: Natália Correia. Curvo-me diante da senhora. Este poema honra a literatura. E a língua portuguesa.

Marta said...

cs :)

Marta said...

oh Professor!!!! de acordo...
qual de nós está com febre?