sexta-feira, julho 9

Entre santos e serial killers

[li o texto do Miguel Carvalho, primeiro. depois o da Inês Pedrosa. depois fui espreitar se o meu estava lá. fui ler o editorial. depois li o do Rui Zink. voltei a espreitar a ver se o meu ainda estava lá. e estava. li o do Francisco José Viegas, o da Hélia Correia e voltei, novamente,
quase ao fim da revista a ver se era mesmo verdade, a ver se o meu lá estava. e estava.
o nó de emoção ainda está cá. no sítio preferido dos nós. no peito. porque, confesso, uma coisa é admirar a Egoísta de longe, há dez anos; outra, é estar lá dentro.
para agradecer o convite à Patrícia Reis, editora da revista, não me chega nenhum superlativo absoluto sintético. provavelmente, só uma never ending story.
deixo aqui o texto que está nas páginas da EGOÍSTA. leve-a ao micro-ondas, antes de ler.
é verdade. verdade inovadora esta. e criativa. mas isso já todos sabemos. e não é de agora.
a minha já foi. só assim consegui ver esta capa. uma bela homenagem a Lispector.
uma edição inteiramente dedicada à liberdade]

Entre santos e serial killers

Aqui, voltada para o Muro, com uma oração que copiei de um livro, pronta a entalar entre as pedras milenares, sinto-me livre. Livre e grata. Exactamente a mesma liberdade que senti no Santuário da Multiplicação dos Pães e dos Peixes, em Tabga ou na Igreja Ortodoxa de São Jorge, em Madaba.

Depois, na Mesquita do Rei Hussein, de pés descalços e cabelo recolhido num véu, voltei, novamente, a essa sensação de liberdade que a fé ou a dúvida – não estou certa – me dá.

Uma liberdade comovida, mais sentida no Monte das Bem-Aventuranças ou mesmo nas margens serenas do Mar da Galileia. Uma brisa muito leve e uma certa paz, branca e negra como a igreja de Antonio Barluzzi, tomam conta das minhas inquietações.

«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!» E das oito, mais nenhuma me vinha aos lábios. Talvez por ser a que menos o meu coração entende. Talvez por a terra ser o princípio e o fim de tudo. O grande motivo.

«Se tiverdes a fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.» Sempre gostei desta parábola e, agora, ver o grão de mostarda feito souvenir, dentro de um vidro, com umas gramas de terra a dizer “Holy Land, 5 Shekels”, a dimensão profética esbate-se. Afinal, não há guerra, que não seja pelo poder da terra. Ainda por cima santa. E não há religião, que eu conheça, que não tenha os seus souvenirs.

A Terra Santa não é fácil. Ponto. Muito menos para espíritos inquietos. Muito menos quando se passam fronteiras. Que uma coisa é passar fronteiras outra, distinta, é ler jornais ou livros. Que uma coisa é imaginar e outra é ver. Ver o muro alto, de betão, coberto de grafites: «hipócritas». Lá o passei, para a Palestina. Tive liberdade para isso. E os que lá estão?

A liberdade religiosa é outra coisa. No seu conceito, dá-nos um certo conforto, pelo menos tal qual está declarada nos direitos humanos. «Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou
crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou colectivamente, em público ou em particular.»

E na terra das três grandes religiões monoteístas, com um deserto para atravessar, o tempo é outro. Para pensar e rever conceitos como este.
Para olhar para dentro e ouvir. Até porque o deserto tem esse poder escatológico. E sempre foi palco de grandes revelações. Encontramo-nos mais próximos de qualquer coisa, na mesma medida que não a sabemos explicar.

Ali, algures entre um Pai-Nosso do Padre Jardim e uma oração Bahai, do Guiora encontrei, talvez, a melhor definição de liberdade religiosa.
Talvez pela partilha generosa do conhecimento. Talvez pela convicção
com que cada um fez a sua oração. Talvez pela serenidade do abraço que deram. Não sei ao certo.

Sei que me é muito mais fácil acreditar no Bem e no Mal. Que é como quem diz, acreditar em santos e serial killers. Acredito na existência dos dois. Sem rebuço. [Sendo que é muito mais fácil acreditar nos segundos.] São os extremos de que o Homem é capaz. Pelo meio, andamos nós, os que duvidamos. Os que temos fé. Os que copiamos orações e as inventamos. Os que procuramos ser livres. Os que acreditamos, mesmo sem quipá, que há algo acima de nós.
Os que sentimos uma imensa gratidão por termos aprendido a dizer:
«Bem-aventurada é a região e o lugar, a casa e o coração».

[dedico, aqui, este texto ao grupo magnífico que fez esta viagem inesquecível]

17 Comments:

Mafalda Branco said...

Que emoção!!! Estou muito, muito feliz!!
Parabéns Martinha!!
Só dei dizer isto: TANTO; TANTO; TANTO!!! :)
Beijo grande!!

Anónimo said...

Olá Marta,
uma viagem apesar de ainda ser longa não deu para descobrir o seu talento para a escrita, mas agora está visto. Muito obrigado, pois gostei muito de ler e ainda bem que me enviaram este sítio ao qual agora estarei atento.

aveloh said...

bela crônica, Marta! Você escreve muito bem.

Woman Once a Bird said...

Muitos parabéns, Marta. Ainda por cima numa edição com Clarice a abrir as hostilidades. :)

Sonhos & melodias said...

Oi Marta,
Li seu comentário a respeito de Florbela no blogue da Leca e não pude deixar de passar por aqui para deixar-te um sítio de um amigo meu músico, compositor que ama igualmente essa poetisa e musicou alguns poemas dela. Ficou um trabalho belíssimo e, porisso, vim te apresentar. Mas qual não foi minha surpresa ao dar de cara com seu texto lindo. Parabéns! Escreve muito bem e como amante também da literatura, rendo-me ao seu texto. Vou virar sua fã e te seguirei através de meu blogue. Deixo aqui o convite para conhecer meu blogue também.
Flor de Florbela
http://www.marcosassumpcao.com.br/

Leonardo B. said...

[M. isto não se faz! A Egoista só se encontra em Portugal, não é? Por aqui nem o JL! Mas mais egoista que a Egoista sou eu! Um abraço só para si! E a mais ninguém!!!!!!! Até sempre, M.]

Um imenso abraço,

Leonardo B.

*(isto é só uma forma de pressão, a ver se o interior, ou NUTS III, como se costuma dizer por aí, fica incluído nesse país... ;)

Carlos Eduardo Leal said...

Marta,
Que linda relação fizestes entre Bem/Mal, Liberdade/Religião, Terra/Santos. Porque nossa liberdade deveria ser nossa religião e a casa, o lugar do coração.
Clarice adoraria te ler!
Bjs com a admiração,
Carlos Eduardo

K said...

Lido de novo!! E sempre com espanto!! Escreves com tanto sentimento e sabedoria que sinto que o meu dia ficou melhor depois de ler-te!

Beijo

(e escreve mais)

Sérgio Aires said...

Sinceros parabéns Marta. Um texto fantástico, resultado de uma viagem em que não "embarquei" por contingências da "vidinha", essa assassina (em série!) que nos vai despedaçando todos os dias...

helenatoutcourt@gmail.com said...

MARTA ...mas nem por isso morta omissa ou desatenta.Para dizer que raro encontro voz tão concordante...logo ficarei menos só nas minhas crenças e dúvidas todos os monossílabos que temos trocado não passaram em vão cimento aqui um abraço para todos os momentos.

HelenaBranco

Ana Magalhães said...

( Lucas 19, 3-4)
"Zaqueu procurava ver Jesus e não podia por causa da multidão, por ser de pequena estatura. Correndo à frente subiu a um sicómoro, para O ver porque Ele devia passar por ali."
Eu sou como Zaqueu, pequena. Pequena não quer dizer em estatura, mas sim insignificante.
A dificuldade de Zaqueu em ver Jesus não se devia à multidão, mas à distância que os separava. Jesus terminou com essas limitações e entrou na sua casa.
Eu sou tão pequenina, longue de ver Marta Vaz pelo meio da multidão. Não precisei de subir numa árvore, porque ela, mesmo assim entrou no meu coração.

Ana Cristina Pereira said...

"Há tanto Deus a derramar-se em nós." Else Lasker-Schüler

Obrigada.

Marta said...

Mafalda, és sempre muito, muito fada e muito "minha" :)

Anónimo: obrigada.

Aveloh: fico contente por ter gostado. tanto. :)

WOB:esse é tb o ponto! qualquer coisa cá dentro. tu sabes. claro que sabes.
saudades.

Sonhos,
obrigada pelas suas palavras e sugestões.

De seu nome completo Leonardo B. Acutilante :)

Carlos, só para ler
«Clarice adoraria te ler!»
já valeu TUDO...
tanto tanto que não consigo dizer.
a admiração é mútua :)

K, querido K :)

Sérgio,
muito e muito obrigada mesmo.
[teria adorado a viagem, estou certa disso,
e tirado belíssimas fotografias, como sempre]

Que bom, Helena, que se sentiu acompanhada...e há longas conversas que dizem menos do que os nossos monossílabos. Obrigada.

Ana:
sem rodeios que não tenho jeito para isso.
é das pessoas imensas com quem tenho o privilégio de me cruzar diariamente. e estou grata por isso.

Ana Cristina Pereira,

eu é que tenho de agradecer as tuas histórias magníficas.
um jornalismo humanismo absolutamente necessário nos tempos que correm.
obrigada.

Anónimo said...

Martinha, estás de parabéns.
Bj Marta

Anónimo said...

Tantas questões, Marta, tão pertinentes. A cada parágrafo questões que dão vontade de saltar para uma mesa de café e ficar na conversa. A Palestina é uma delas, sabes disso e tantas outras como essa questão dos santos que agora me pareceu tão natural existirem, mas como muito bem dizes também, é mais fácil acreditar nos serial killers.
PARABÉNS

Anónimo said...

Marta,
Muitos PARABÉNS!!!
És memo um Génio!!!!
Eu sempre disse, desde o ACLIVE...
Bjs e PARABÉNS aos "outros" que escreveram na mesma revista do que Tu!!!!
P

Marta said...

P. querida P :) :) :)

exageras tão bem!
mas os senhores e senhoras que passam aqui não sabem que tu és mesmo muito minha AMIGA, aliás, mais do que minha amiga. mas pronto. agora que eu já disse que tu gostas mesmo mesmo muito muito de mim [e eu de ti]
já parecem normais os teus excessos :) :) :) :)
bjo, LINDA.