quinta-feira, julho 15

Cansado


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

6 Comments:

Anónimo said...

é um cansaço que não tolhe!
beijinhos
graça

K said...

Ai, como eu compreendo este cansaço!!!

Beijos

Bípede Falante said...

Que lucidez!

Carlos Azevedo said...

Estou com a Helena: que lucidez!
Beijos.

Anónimo said...

Ai Marta, Marta lavo a alma quando passo aqui.

Carlos Eduardo Leal said...

Marta,
A gente não se cansa de (te) ler, a gente não se cansa de ser, a gente não se cansa de viver. O difícil é continuarmos, no passar dos dias, casados com tudo isso.
Um bj,