terça-feira, julho 20

Como se houvesse milagre


Não tenho postado. Não é só preguiça. Motivos há imensos.Sobra-me o espanto.
Histórias. O tecto do meu quarto está lotado. De repente, Viseu, Lisboa, Luanda.
O mundo ficou sem fronteiras. Para uma galaico-duriense, agarrada à meseta de afectos. E não pensem que não sei o que são terramotos. E sismos.
Sei bem. Não sei, se sei de sobra. Mas sei bem.
E sei o que é pegar na régua e no esquadro. Outra vez.
São 200 anos. É muita vida. E às vezes sinto-me cansada.
Eu de suplemento na mão, a desfolhá-lo,
em vez de o pôr no lixo, como sempre.
Espaços & casas ou vice-versa. Ou nada disto.
Casas em Lisboa em páginas de jornal.
Eu de marcador a fazer círculos à volta dos anúncios.
Eu a fazer e a não estar a acreditar no que fazia.
Eu a perceber que às vezes não acreditamos no que fazemos mas fazemos.
E fica feito. Eu a fazer analogias, a desviar-me do cerne da questão.
E os anúncios, tantos. E a faltarem-me as ruas, as zonas. Sei lá onde fica isto.
Eu, entre a luz e o granito. E o granito como retrato e a luz como estímulo.
Eu a telefonar. A perguntar por preços, voz segura. Coração trémulo.
Mas a perguntar. Como se nunca tivesse dito não a Lisboa. Convicta.
Eu a pesquisar na net. À procura de Luanda. No Belas Shopping.
Eu tentada. Já no avião. Nas nuvens.
Com vontade de regressar e ainda não tinha saído do sofá.
Eu a fazer contas e a apagar o sorriso dos meus sobrinhos do quadriculado do caderno. A sentir os xis-corações. Os seus braços a crescerem à volta do meu pescoço.
Deixa-te de ser lamechas. Vá. Deixa-te de tretas. Vai ser muito bom. E mesmo que não fosse.
[...]
Não vale a pena. Às vezes não vale. Mas há imagens que insistem.
Acontecem em minutos e repetem-se uma vida.
O pisa-papéis, pesado, precioso, na cabeça do Senhor Manuel.
O pisa-papéis inteiro na cabeça do pisa-mansinho que queria ir a Nova York mas não sabia falar inglês.
Como foste capaz?
A mercadoria do contentor por conferir. A recusa da assinatura.
Ò dra. não assina? Isso vai dar problemas. E deu.
A gajita de 26 anos a chamar-te demasiado educada. Como se fosse um insulto.
A dizer-te que era preciso ter tomates. Como se fosse um requisito.
E tu, polida, a dizer que tomates, tomates, tem quem recusa uma pipa de massa à porta de casa. Que - perdão - tomates, tomates, tem o Senhor Manuel, que levou com o pisa-papeis do Dubai nas trombas e nem chiou. Cambaleou. A sangrar. Pingas de sangue no mármore. Atrás de si. E depois, no Jaguar. Surreal.
[...]
A tentação, à flor dos lábios. Voz alta, dentro do carro.
- Porquê a mim? A ti, porque sim, porque se não fosse a ti, era a outra qualquer.
E depois, de repente, já perto de Lisboa ou Luanda, aconteceu.
O coração, feito casa de muito movimento.
Alfândega de novas mercadorias.
Voltado para o Douro, feito cais de afectos.
O granito como retrato, a luz como estímulo.
Como se houvesse milagre.

7 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

Que susto!

Pensei que ias embora. Emigrar. Ou algo parecido.

Beijos e muitas saudades.


csd

patxocas said...

Grande milagre!
Grande conto!

patxocas said...

Não me identifiquei. Desculpa!
Sigo o blog há algum tempo! Só hoje comentei.
Parabéns pelo mesmo.

Jinhos,
P.

João Menéres said...

Vais?
Ficas?
Foste?

O que verdadeiramente importa é o que fica.
-De quê?
Não sejas tonta !
Claro quesabes que me refiro à história
>COMO SE HOUVESSE MILAGRE< !!!

O número de pessoas que escrevem MESMO BEM que encontro nalguns blogues compensa o outro prato da balança, não em peso, mas em QUALIDADE.
É um prazer ler textos assim, MARTA.

Um enorrrrrrrme beijo.

Carlos Pires said...

Einstein disse, mais coisa menos coisa, que é um milagre não existirem milagres. Ou terá sido que o único milagre é não existirem milagres?

Terráqueo said...

Sinto fala de tuas postagens. Tome seu tempo, mas volte.

Maria de Fátima said...

eu às vezes passo
foi o que se deu hoje
benção dos céus que este texto ficará no recanto dos tesouros que guardo: como é mesmo o nome? isso! há vida em Marta, claro! e milagres...