sexta-feira, março 23

O meu amor não cabe num poema




O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,


que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.


O meu amor é maior que as palavras,e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto

- a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.


O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervesente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele,vestígios


de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.


Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.


Maria do Rosário Pedreira

3 Comments:

josé luís said...

como alguém diria... issíssimo! ;)

Marta said...

:)pois é!

Eduardo Trindade said...

Um encanto esse poema, amiga! Guardo-o aqui para mim!
PS: é bom voltar a frequentar esse espaço...
Abraços!