sexta-feira, março 2

De certo modo, os franceses estilizaram o amor...



De certo modo, os franceses estilizaram o amor, criaram um determinado estilo, um determinado formato para o amor. E depois acreditaram nisso, sentiram-se obrigados a vivê-lo de uma certa maneira, quando poderiam tê-lo vivido de forma completamente diferente, se não tivessem atrás de si toda aquela literatura. (...) ali toda a gente está exposta a essa noção literária do amor, da emoção, da sensualidade, do ciúme (...). Há demasiadas convenções em tudo isto.

É preciso saber desde logo o que se entende por amor. Se se entende por amor a adoração de um ser, a persuasão de que dois seres foram feitos um para o outro, de que se correspondem mutuamente por qualidades de certo modo únicas, nesse caso a miragem é tão grande que qualquer pessoa que reflicta um pouco diz forçosamente: "Não, estou longe de ter essas qualidades excepcionais e o outro provavelmente também não as tem; tomemos consciência do que é; amemos o que é.

Marguerite Yourcenar in  De olhos abertos, pag. 71, Relógio de Água Editores, Lisboa, 2011
Tradução de Renata Correia Botelho

imagem: Miguel Carvalho

1 Comment:

Terráqueo said...

Lindo, devemos amar o que é, acredito nisso. Mas como saber o que é realidade o que é fantasia. E como resistir a relação se não houver a fantasia, um pouco de idealização?