quarta-feira, março 21

A paixão inventiva é tanto do literato como do filósofo

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3. A paixão inventiva é tanto do literato como do filósofo


A literatura não é uma essência escondida sob o texto dito literário, como ficou dito. Então o que é? É uma invenção. Eis um termo importante para a desconstrução. A literatura é algo produzido, fabricado, por um determinado escritor, dentro duma determinada cultura, num determinado momento histórico. Essa fabricação não é feita a partir do nada mas a partir das possibilidades inscritas na linguagem, numa determinada linguagem. Há dois tipos de invenção: a invenção técnica e a invenção impossível. O homem, o único ser capaz de inventar, tem sido, ao longo da sua história, um inventor de dispositivos técnicos, de artefactos, dos mais variados objectos para o seu proveito, divertimento ou utilidade. Aproveitando, por um lado, as possibilidades inscritas na matéria e, por outro lado, o seu progressivo conhecimento das leis de funcionamento desses materiais e dos elementos que os constituem, tem sido possível trazer à manifestação as mais variadas descobertas. Estas invenções não são mais do que um ‘dar-se conta’ de potencialidades que estão aí no já dado pela natureza. Em linguagem aristotélica, são uma passagem da potencialidade à actualidade. A invenção técnica cabe perfeitamente dentro do conceito de imitação (mimesis), uma vez que supõe uma expansão a partir de algo anterior. Mas, para além desta invenção ‘verdadeira’, há um outro tipo de invenção que interessa particularmente a J. Derrida: a invenção ‘falsa’ ou impossível. A invenção literária pertence a este tipo. Para o escritor, não há limites para a sua capacidade inventiva: ele pode inventar seres extraordinários, mundos perfeitos, coisas absolutamente impossíveis de acontecer no mundo ‘real’. O Adamastor é uma invenção de Camões; os Bichos são uma invenção de Miguel Torga; a Viagem à Índia de Bloom, é uma invenção de Gonçalo M. Tavares. No entanto, quer na invenção técnica, quer na invenção fabulosa, há algo em comum: uma e outra supõem a introdução abrupta de uma instabilidade dentro do possível, uma quebra da regra, da ordem estabelecida, da linha horizontal sobre a qual acontecem as coisas. Na invenção algo cai verticalmente, algo é interrompido para abrir espaço a um facto novo. A ordem do possível é abalada e a previsibilidade surpreendida. Por isso não há método para a invenção. A invenção não pode ser preparada nem dirigida. A invenção acontece fruto do acaso e dum salto mortal entre aquilo que se pode esperar duma investigação paciente, por exemplo, e aquilo que vem (invenire) sem ser esperado. O invento não é o que resulta das ‘condições de possibilidade’ para o acontecer de determinada coisa, mas aquilo que se abate imprevistamente, fortuitamente, sobre a normalidade do acontecer. Não se pode programar uma invenção porque ela é mobilizada por uma impossibilidade. O impossível, neste sentido, não é o contrário do possível, a face oculta do possível. É a interrupção do possível ou, dito doutro modo, o rompimento das fronteiras do possível. A invenção duma estória, duma fábula ou dum verso representa um golpe desferido sobre o possível, o já sabido ou imaginado, o expectável e previsível. Mas reparemos: não é só na invenção literária (‘falsa’) que entra em jogo o fabuloso, o fantástico e o poético. Também a invenção do parafuso, da máquina a vapor, do antibiótico ou da internet introduziram sobre a vida humana uma poética assombrosa.

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Nuno Higino in "Entre Filosofia e Literatura: responsabilidade infinita"

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