segunda-feira, março 19

AS MULHERES NAS ESTRELAS DE ALCATRÃO



As mulheres conhecem-se pelo andar. Não é a velocidade

dos saltos ou a idade tardia com que chegam ao café.

Depois dos raios cruzarem os ares e a rua estar deserta

elas abrem as portas e lançam centelhas pelos poros

fêmea até depois dos cem. Quando são avós as mulheres inventam

mimos como uma equação puramente matemática,

porque o amor das mulheres é rigoroso até à infusão de frutos,

ou folhas de tília a florar a próxima aventura da netinha.

Já todas nos sentimos assim, amadas até ao infinito

e sem saber o que fazer com ele. É por isso que as bolsas

das mulheres são a terra do nunca com um final feliz,

quando encontram a chave e o batom e abrem as portas

de vermelho em sangue nos lábios com que beijam a vida

e o chocolate. Sabemos que são elas pelo andar

e não está em causa se é chato o pé ou as pernas tortas.

Se as conhecemos tão bem é porque estão longe da perfeição

e ao falarem dela riem-se da coxa enfeitada de celulite

quanto baste para escapar ao fotoshop. Se o andar

as distingue é porque caminham com sorriso de ave

nos olhos da gente que ao passar recebe bolinhos da avó

ou uma sopa quente. As mulheres dependem da estação do ano

na temperatura com que se dão, dependem dos comboios

e das bicicletas porque o andar é inefável de ténis ou muletas.

Quando as mulheres se cruzam entre duas ruas não sabem de si,

da raça inconfundível que geram a dançar ou coxear,

da fusão dos meteoros no seu ventre de mãe ou de bebé,

porque o umbigo das mulheres é mesmo o centro do mundo

e lá no meio há um círculo de bondade a abrir como se fosse

um descapotável e elas uma noite de verão, ou só de estrelas.

Há uma linha directa entre o andar e o calor do ventre.

É por isso que o colo das mulheres é valioso como uma estrela

e se reflecte no andar para que todos saibam que são elas,

as mulheres, e rebentem o desemprego e o desamor,

a escavar o amanhã e o depois num país sem tréguas.

Rosa Alice Branco

imagem: Fernando Campos

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