segunda-feira, março 19

AS MULHERES NAS ESTRELAS DE ALCATRÃO



As mulheres conhecem-se pelo andar. Não é a velocidade

dos saltos ou a idade tardia com que chegam ao café.

Depois dos raios cruzarem os ares e a rua estar deserta

elas abrem as portas e lançam centelhas pelos poros

fêmea até depois dos cem. Quando são avós as mulheres inventam

mimos como uma equação puramente matemática,

porque o amor das mulheres é rigoroso até à infusão de frutos,

ou folhas de tília a florar a próxima aventura da netinha.

Já todas nos sentimos assim, amadas até ao infinito

e sem saber o que fazer com ele. É por isso que as bolsas

das mulheres são a terra do nunca com um final feliz,

quando encontram a chave e o batom e abrem as portas

de vermelho em sangue nos lábios com que beijam a vida

e o chocolate. Sabemos que são elas pelo andar

e não está em causa se é chato o pé ou as pernas tortas.

Se as conhecemos tão bem é porque estão longe da perfeição

e ao falarem dela riem-se da coxa enfeitada de celulite

quanto baste para escapar ao fotoshop. Se o andar

as distingue é porque caminham com sorriso de ave

nos olhos da gente que ao passar recebe bolinhos da avó

ou uma sopa quente. As mulheres dependem da estação do ano

na temperatura com que se dão, dependem dos comboios

e das bicicletas porque o andar é inefável de ténis ou muletas.

Quando as mulheres se cruzam entre duas ruas não sabem de si,

da raça inconfundível que geram a dançar ou coxear,

da fusão dos meteoros no seu ventre de mãe ou de bebé,

porque o umbigo das mulheres é mesmo o centro do mundo

e lá no meio há um círculo de bondade a abrir como se fosse

um descapotável e elas uma noite de verão, ou só de estrelas.

Há uma linha directa entre o andar e o calor do ventre.

É por isso que o colo das mulheres é valioso como uma estrela

e se reflecte no andar para que todos saibam que são elas,

as mulheres, e rebentem o desemprego e o desamor,

a escavar o amanhã e o depois num país sem tréguas.

Rosa Alice Branco

imagem: Fernando Campos

quinta-feira, junho 30

Gado do Senhor


[este novo livro de poemas de Rosa Alice Branco é apresentado amanhã, às 22.30,
nos Maus Hábitos. A não perder!]

RECEITUÁRIO PARA AS ALMAS


Mesmo se (como ela hesita)


a morte é falsa e tu te levantasses

era preciso desenhar o caminho de volta.

Apagar as margens. Perguntas-me se o amor

pode este desalinho. Crer é difícil e

mais ainda é não acreditar. Estreito o caminho

que inventamos para nos perdermos. Ela sabe

como são altos os muros da salvação.

É só isto que sabemos? Custa mais aceitarmos

a ignorância do que um muro? Se a morte é falsa

deixa-te estar deitado. Tens um lençol de terra

e não precisas de acreditar em nada. Não é com desespero

que to peço. É mesmo por não valer a pena. Pelo menos

nas noites frias esfregamos os ossos um no outro,

e ficamos a ver as estrelas a chispar em nós.

Rosa Alice Branco in Gado do Senhor


Mais poemas aqui

quinta-feira, setembro 2

imagerie cerebral


Venha doutor ensinar-me a distiguir
a emoção do sentimento. Guie-me para que a mente
se torne clara, o espírito lúcido e a alma
- ah, talvez possamos dispensar a alma.
Enquanto espero ficarei escondida no armário
entre a roupa de verão e a de inverno
terei calor de um lado, termerei do outro,
mas no centro o coração estará a boa temperatura,
a uma tépida esperança. Porém se demorar a imobilidade
mudará as estações da roupa, as fases da lua. Esta atracção
por si é uma maré viva, uma maré cega se não vier
ensinar-me o que é a emoção e o sentimento. Faremos
uma ressonância antes do chá, uma sonda perfurando
o insondável. Venha doutor dizer-me se sinto fome, se
tenho sede, ou se não passo de uma ilusão dos sentidos.

Rosa Alice Branco, in Soleterar o Dia, Edições Quasi
imagem: Alexander Klevan