quinta-feira, agosto 18

urgências III [Esperando uma carta]


Van der Weiden o representou pela manhã.


Figura de monge escolar

olhando desde cedo os campos

espera uma carta novos passos do companheiro doutro claustro

distante

tratando os problemas da substância

em letra de tom castanho e magoado espera

uma carta toda a manhã

notícia dos campos seus a mãe ou a irmã

dirá da caça da invernia

do casamento e morte dos parentes das crias

novas

uma carta distante perdida carta.

Sem outra vida espera

uma carta amada isso de certo

olhando da pequena janela sobre os mundos

a chuva o vento o sol dos meses

esperando uma carta todas as manhãs a vida.


João Miguel Fernandes Jorge, O roubador de água, Edições Assírio e Alvim, Lisboa, 1981, pp 83.

imagem: “Flandres, 1435-37. Este é um fragmento que fez parte de um retábulo separado por razões desconhecidas, ao qual também pertenceu a pintura Madalena lendo (The National Gallery, Londres). Julga-se que o conjunto, originalmente uma Sacra Conversazione, terá constituído uma das principais obras da primeira fase de produção autónoma de Rogier van der Weyden.”

desviado daqui

1 Comment:

Claudia Sousa Dias said...

Quem mo dera...!