quinta-feira, agosto 25

Quando as coisas se passam demasiado depressa...


Quando as coisas se passam demasiado depressa, ninguém pode estar certo de nada, de nada de nada, nem sequer de si próprio (...) recordei a equação bem conhecida de um dos primeiros capítulos da matemática existencial: o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento. Desta equação, podem deduzir-se diversos corolários, por exemplo o seguinte: a nossa época abandona-se ao demónio da velocidade e é por essa razão que se esquece tão facilmente de si própria. Ora, eu prefiro inverter a afirmação e dizer: a nossa época está obcecada pelo desejo de esquecimento e é para realizar esse desejo que se abandona ao demónio da velocidade; acelera o passo porque quer fazer-nos compreender que já não aspira a ser lembrada; que se sente cansada de si própria; farta de si própria; que quer soprar a chamazinha trémula da memória.



Milan Kundera in A Lentidão

imagem:Stu Levy


3 Comments:

fallorca said...

Belo livro, Marta :)

Luis Eme said...

bela explicação, Marta. :)

mfc said...

Sim... claro!
Praga é linda!