sábado, janeiro 15

...livros...


[...] Os livros são como todos os vícios: a dado momento poucos nos retêm. E são precisamente essas excepções que nos comprometem, nos impelem à expectativa dos enunciados. Esse filão é que nos alimenta o prazer da leitura, compulsiva, quase visceral, desde que aprendemos a ligar as letras e dispensa a atrocidade (a veleidade) de qualquer explicação.

Paradoxalmente, há autores que admiro, que procuro e me são praticamente indispensáveis, mas de quem nunca li um livro. Alguns foram-me proporcionados pelo acaso - que continuo a considerar a melhor maneira de descobrir um autor, uma escrita - em insuspeitas crónicas semanais publicadas em jornais ou suplementos literários, nem sempre como mais-valia. Mais do que acreditar ou interessar pelos temas - as tricas. Juan Goytisolo ridiculariza-as com esta caricatura institucionalizada, «se me citas cito-te, se me louvas louvo-te, se me lês leio-te: original e castiço sistema crítico fundado na tribal, primitiva economia da troca! (...) fora de tom, inautênticos sempre, excepto quando recíproca, iradamente se combatem*» - , ainda vou considerando essas publicações como ferramentas necessárias para o ritual de um quotidiano de que me distancio.

Entretanto, os livros continuam a amontoar-se à minha volta. Comprados, oferecidos, trocados - poucos merecem a generosidade de pertencerem a alguém - ,são uma presença indissociável da minha; indispensável e tranquilizadora extensão de mim mesmo, objectualizada pelo volume, a dimensão, a qualidade do papel, o fascínio gráfico, o apelo da capa que nos assegura a disponibilidade do olhar e do tacto.

Exceptuando a presença temporal dos que traduzo, à falta deles, poderia considerá-los animais de estimação, sendo-me difícil, dolorosa mesmo, a indispensável depuração imposta pelo crescimento desordenado e quase daninho, mas nunca claustrofóbico. Até serem exilados para as estantes menos consultadas, cumprem um curioso movimento de rotação - vasos, livros comunicantes? - ,sobrepondo-se e impondo-se, reciprocamente, sobre a mesa que medeia entre o sofá e o nicho na estante onde trabalho.

Olhados à distância, considero-os o mais fidedigno testemunho da roda-livre dos meus interesses, e poucos sobrevivem ao regresso, porque entretanto outros acompanham os que me denunciam a ausência.
Esgotado o prazer de uma leitura, por vezes procuro-lhe a matriz editorial e uma polifonia de línguas, na expectativa de que esses novos livros me devolvam ou enriqueçam o prazer original.
«(...) quando se é jovem estabelece-se uma relação com os livros que nos marca para sempre: sermos filhos dos nossos livros, se os vivemos e nos viveram a tempo, ou cresceremos e morreremos orfãos da sua insubstituível progenitura (...)aos velhos, incluídos os velhos prematuros, resta-nos - e obrigado - a paixão secundária da releitura, precisamente porque, debilitadas a sensualidade leitora, a capacidade de surpresa, de amor pela novidade e de entusiasmo, torna-se-nos mais fácil reavivar brasidos do que criar novas fogueiras (...)».
Rodeado de livros pela força da sobrevivência como tradutor - declino a expressão vertedor, com que se pretende banalizar a alquimia da tradução como uma trasfega de idiomas - , nenhum dicionário, nenhuma enciclopédia, nada me resolve o confronto com a ausência de correspondência entre palavras tão simples como ar, sol,luz ou claridade, por exemplo.

A experiência tem-me demonstrado que a luz de um autor latino-americano é substancialmente diferente da luz escrita por um anglo-saxónico, um europeu, e que é um equívoco pretender que é sempre igual para os escritores do anel mediterrâneo. Existe uma tal variedade de nuances, de gradações nessa luz revelada ou iluminada por um escritor grego, egípcio, magrebino ou andaluz, que tornaria ridículo circunscrever a luz às cores pateticamente enunciadas pelo arco-íris, as estações do ano, as horas do dia, a memória.

Jorge Fallorca in a cicatriz do ar, pag.12-14, Edição de Autor, 2009

3 Comments:

Anónimo said...

"Alguns foram-me proporcionados pelo acaso - que continuo a considerar a melhor maneira de descobrir um autor"

E a mim também :)

bjo
Cris

fallorca said...

Marta, no link da wook dá o livro como esgotado; mentira, há na Pó dos Livros e na Trama

Marta said...

obrigada :)