segunda-feira, setembro 10

S-Bahn

(...) No entanto não conseguia alherar-me de outros aspectos, mesmo que quisesse. Aquela não era uma cidade normal, estava partida ao meio. Respirava-se com dificuldade, sobretudo num dos lados.


Na verdade, eu respirava com dificuldade em ambos. ...O lado oeste também não me parecia um bom exemplo de sociedade nem de vida. Pelo menos não era nada disso o que eu desejava para o meu país. Mas na altura não tinha de preocupar-me com grandes questões como essa. Já me dava trabalho suficiente a pequena questão de viver, ou sobreviver, no dia-a-dia.

De facto não era fácil, porque eu me distraía e baralhava as normas. Por exemplo, dobrava o édredon do lado errado, e tornei a sair à noite a esquecer-me da chave.

Dessa vez tinha ido ao teatro com Jean-Pierre, um francês nascido em Port-au-Prince, que estudava arqueologia.

Separamo-nos na estação do Zoo e seguimos no metro em direcções diferentes. Em Berlim em geral era esse o uso, os rapazes com quem saíamos não nos acompanhavam depois até casa, se moravam longe, porque não teriam depois eles próprios transporte, uma vez que o metro acabava cedo. Mas eu não me importava de regressar sozinha, Berlim parecia-me seguro, e além disso eu assumia que fazia parte da emancipação das mulheres desembaraçarem-se por si,em lugar de se tornarem um estorvo.

No entanto, quando dei por falta da chave, lamentei que Jean-Pierre não estivesse comigo. Não queria acordar outra vez a dona da casa, mas não tinha dinheiro para ficar num hotel. Não podia pernoirnuma estação de metro, porque fechavam cedo. Ele poderia ter dinheiro para um hotel e emprestar-mo; ou então deixar-me ficar no quarto dele, por uma noite, não me importaria de dormir no chão, qualquer solução servia, desde que não tivesse de passar outra vez pela humilhação de acordar a dona da casa. Essa era de facto a última coisa que eu queria. Mas não sabia onde Jean-Pierre morava,nem tinha o seu telefone.

Estava sozinha.

O S-Bahn, lembrei-me de repente. Circulava toda a noite, entre os dois extremos da cidade. Podia passar a noite no S-Bahn. (...)



Teolinda Gersão in A Mulher que prendeu a chuva, Sextante Editora

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