sexta-feira, setembro 21

Metamorfoses


Não em bar de Kashbah, mas em café

de Leça da Palmeira (pequena vila ao norte

do país), a tua voz aqui me leva lá



...O resto: é só mudar na gente aqui

a roupa ocidental para barba e burel,

vislumbrando punhal entre mil panos



O resto: é só virar a cor do espectro

para branco e cinzento - já agora,

em lugar daquela mesa, organizar piano

(em contraponto)



O resto: é só subir a temperatura

uns vinte graus (ou mais), disfarçar a ternura

como, há cinquenta anos, esses dois



O resto: é inventar em Leça da Palmeira,

no meio de nevoeiro tão imenso,

um olhar tenso a disfarçar-se brando

(um poço de desejo, e ventoinha

em avião de espanto)



Nas mesas do café de leça da Palmeira:

Casablanca voando, e à medida que o tempo

se desfaz imenso: um saxofone brando,



deixar junto do verso a promessa do nada

que não houve, mas se senta ao piano

repete, como em sonho, a mesma melodia



- traduzida em inglês: toca outra vez, e outra,

que nem Kashbah aqui, mas bem podia

ser a tua voz (num registo

final)



Ana Luísa Amaral in Poemas com cinema, pag 149, Assírio & Alvim

0 Comments: