segunda-feira, setembro 3

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade


Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa (...)eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé de goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos [...].


Manoel de Barros

Fotografia: Robert Doisneau, 1934
 
Fonte: aqui

1 Comment:

Tati said...

Em tempos de desconfiança, o quintal da memória é o espaço mais privado, seguro e divertido para se cavocar!

Abraço.

ps: e lá vou eu provar que não sou um robô.