domingo, dezembro 20

a era MULTI


há por aí umas infra-estruturas, geralmente de betão municipal, que me fazem impressão.

já deram de caras com alguma. de certeza.

fui a Guimarães, jantar a casa de uns amigos. casa nova. onde fica?
- perto do pavilhão multiusos.

sinalética rodoviária indica o dito pavilhão. o multiusos.

o fenómeno não é recente.

eu não reagia assim ao prefixo multi. juro que não.

até o acarinhava. que sou de ciências sociais.

agora, desconfio dele absurdamente. e no que diz respeito ao multiusos, então, fico desvairada. tudo nos pode levar a estes locais onde tudo pode acontecer.

concertos, teatros, feiras diversas, comícios, circos, missas campais, exposições de longa e curta duração... enfim, qualquer evento cultural, comercial, desportivo, político...

uma monotonia. um desespero.

temo pela função dos lugares. temo pela [des] caracterização dos espaços.

arrepio-me só de imaginar que os teatros desaparecem, os templos desaparecem, os museus desaparecem, as casas da música desaparecem, os pavilhões desportivos desaparecem e, no lugar deles, surge, em cada vila, cidade, planeta, um multiusos gigante capaz de albergar tudo e toda a gente.

mais do que nunca estamos na era multi.

multiusos

multifunções

multifacetado

multidisciplinar

a ideia de muito, expressa pelo prefixo multi enerva-me. deixa-me ansiosa.

na tmn, dizia eu, [depois de o meu telemóvel dar de si]

- quero, por favor, um telemóvel. um telemóvel com o menor número de funções possível.

a menina “até já” olhava fixamente para mim. sem se mexer. os seus olhos diziam

- importa-se de repetir, sua louca alucinada?

- eu quero um telemóvel básico: que não dê para bater a sopa, que não dê para pintar os lábios, que não dê para secar o cabelo, que não dê para tirar café, que não dê para pendurar quadros. que não faça de GPS. um telemóvel convicto das suas funções de telemóvel. sem desvios de personalidade. sem comportamentos desviantes. tem algum?

temo pela proliferação do multi.

temo pela descaracterização dos objectos e dos edifícios.

temo pela função das coisas e dos lugares.

temo pela minha sanidade mental.

eu temo que o princípio do canivete suiço seja aplicado a tudo.
a tudo e a mais a alguma coisa.

15 Comments:

Funes, o memorioso said...

Por uma vez (que espero sinceramente não se repita), estou absolutamente de acordo consigo. Absolutamente.
A moda começou com a EXPO 98, de má memória. O "Pavilhão Atlântico" (como se designa hoje aquela abjecção plantada na margem direita do Tejo e que parece a ampliação gigantesca de uma tampa de sanita) era então o "Pavilhão Multi-usos"). Para não ficar atrás da capital, a saloiada das câmaras municipais de todo o país quis logo, também, um "Multi-usos" na sua terriola.
O que mais me impressiona é que a esmagadora maioria dos Multi-usos não têm, habitualmente, uso nenhum.

Patti said...

Sou tal e qual com o telemóvel. Simples e sem muitas voltas. Quais multi, quais quê!É uma multi-moda.

Lina Faria said...

Marta, concordo com você e sou solidária à sua angustia e irritação.
É a cultura do shopping.
É a morte da rua junto a identidade de sítios que tinham sua excelência, desde o visual, ao local.
Agora o que vemos é a proliferação de "disney's".
São os equipamentos que resolvem tudo, mas a curto prazo. Tudo é descartavel e sem personalidade.
Tempos de "placas mães".
E mães, como me diz um sobrinho da mecatrônica, morre . Nada mais é feito para durar. Nada faz nada sozinho.
Ah, confusão dos tempos...
Obrigada pela visita, Marta.
Teu blog continua ótimo!

Eduardo Trindade said...

Pois é! Reservemos aos canivetes suíços o espírito de canivete suíço! Concordo contigo. Antes de ser multi, é preciso ser uni (já me ofereceram um aparelho que tinha uma série de funções mas NÃO funcionava como telefone, acredita?).
Abraços saudosos!

rps said...

Concordo.
Mas o meu comment reporta-se à imagem horrorosa desse caniteve. Jamais ousei pegar num - tenho a ceretza de que se o fizesse e tentasse utilizar, em segundos ficaria com um membro decepado. Ou, no mínimo, com vários dedos decepados.

Anónimo said...

"MULTIBEM" esgalhado!E a irritação também lhe assenta muito bem, Marta!

Leigo

K said...

Eu cá também não gosto nada dessas multi-montão-de-coisas-ao-mesmo tempo-tipo-salgalhada-sem-identidade-certa.

Mas sempre quis ter um canivete suíço...pq dá quase a garantia de podermos ser um Mac Gyver instantâneo.

Claudia Sousa Dias said...

o meu ex deu-me um...canivete suiço. acabou no lixo.

sabes estou-te mesmo a ver a ter aquele diálogo com a vendedora...eheh!

csd

Reflexos said...

...pois é como os polivalente... depois não fazem nada bem... ajeitam-se!

Aqui em Braga ainda temos o nosso teathro Circo, mas sinceramente a programação é uma palhaçada... divulgam o que não presta e os espectaculos de jeito ( poucos) estão semptre esgotados...

Parabéns pela participação na i...

Teresa said...

É a tendência da época, espaços que podem ser tudo e não são verdadeiramente nada. Tal como nós, que cada vez mais temos de ser multifacetados e cada vez menos aquilo para que verdadeiramente estamos preparados. O que é prático: podemos sempre ser substituídos por qualquer pessoa, que faça qualquer coisa.
Bjs e Bom Natal.

Fuschia said...

Os multi "não-lugares" proliferam. Pior, são conotados como "modernos".

Bípede Falante said...

multifalhas, multiegoísmos, multisolitários.

El Viejo @gustín said...

Amiga Marta.
Aqui en Bs. As. llego el Verano.
Un recuerdo de Astor, para vivirlo, en mi blog para Voce.

1 beso

Gi said...

E já houve a era/moda poli ... polivalente. Até os seres humanos, que já não bastavam serem apelidados de recursos humanos, ainda acumulavam o pomposo cognome de polivalentes.
Eu fui uma delas. Agora sou uma multi média para a estatística do desemprego. :D

Feliz Natal, Martinha e um próspero 2010.

adevidacomedia said...

O que eu me ri, maninha! Levando a coisa ao extremo, um homem multiusos até podia ser gay...bastava que tivesse uma tecla para essas funções...E depois esquecia-se das básicas...