domingo, dezembro 20

Coração sem imagens

ao António Ramos Rosa
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho in Poemas de Amor, Organização e Prefácio Inês Pedrosa, Publicações D. Quixote, 2002

2 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

muito bonito.

assim.

sem imagem.


csd

lupussignatus signatus said...

da omnipresença

das

claves




*FELIZ
NATAL*