quarta-feira, maio 16

A poesia, tal como a entendo, é inútil.



A poesia, tal como a entendo, é inútil.


Para que terei então chegado aqui?

Novembro destruirá as passadas folhas, assim como a luz

dos teus olhos queimará as palavras que entoo.

Os rios secos de choro atravessam a planície

de um longínquo pais irrecuperável, a cuja memoria prendo

o pensamento. Uma secreta claridade se desprende dos

dedos da cobra, e os arbustos refugiara inquietantes ruídos

animais. Oh hábitos, calma tranquilidade que reina

nestes interiores domínios! Só o observador dos astros

se não distrai da sua nocturna actividade.

Quantos esforços involuntários o amor deixou

atrás de si, e só as mudas paredes do quarto lhes guardam

a distante recordação. Conjecturas, disposições, vagas

esperanças, tudo isso o tempo consome e gasta nas suas

mortais mandíbulas. Ninguém revelará a profunda exactidão

destes acasos. A loucura envolvera o que digo

em sucessivas camadas de pó e lama. A feminina deslocação

dos teus lábios afasta-se, e nem a obstinada suspeita

de um oculto desejo evita o progressivo esquecimento,

os traços do rosto a apagarem-se, o leve roçar dos cabelos

a flor da pele. Nem no poema te reconstituo, sólida

figura de carne e osso que outrora apertei. Ou antes:

quem tomará a sério a palavra de um distraído inventor

de silêncio? Bem te supus longe, envolvido nos abismos

e jogos de linguagem e de razão. A verdade e a mentira,

o desgosto e o humano pressentimento da alegria,

a tomada da vertigem ou as transitórias miragens

da ausente felicidade terrestre,

tudo me transmiti na ambiguidade da obscura passagem,

antes de me descobrir em direcção a nada,

a absolutamente nada, a menos ainda do que o decisivo instante

de coisa nenhuma.


Nuno Júdice in as palavras da tribo, pag.137, Quetzal/Altamira, 1985

1 Comment:

Luis Eme said...

há inutilidades deliciosas...