quarta-feira, setembro 30

Lembranças

1.Devia lembrar-me de lembranças minhas, mas lembro-me de lembranças alheias (lembranças de pessoas que nunca conheci nem nunca me conheceram).


2.Um dia, há muitos anos, cruzei-me na rua comigo numa cidade estrangeira. Recordo agora, do lado de fora, esse instante. Eu era muito jovem e julgava então que desejava morrer. Quem em mim se lembra olhou-me alheadamente, passando, e, por qualquer motivo pareci-lhe familiar. Talvez alguém encontrado um dia,, por acaso, em algum lugar da nossa (da minha e da sua) vida, talvez algum amigo de infância para sempre perdido (quando a infância era como uma vez foi, verosímil e única). Eu não me olhei ou , se me olhei, não me reconheci (é, pois, o Desconhecido aquilo que em mim, agora, se lembra). Sem saber porquê, desejava, ou julgava que desejava, morrer. Contudo era já muito tarde. Alguns anos antes, sim, poderia ter morrido, tão perto estivera então da dor e da perfeição. Mas nessa altura não o sabia ainda. Lembro-me de mim passando e do meu confuso e incerto medo como se fosse eu, como se o medo fosse meu.
Aquele lugar, que lugar era? Que fazia eu ali, tão longe? E eu, que fazia ali? Lembrar-me-ei, também eu, desse lugar e desse momento? Quem, ou o quê, se lembra de isto? Agora sei que, se me tivesse olhado, por um momento que fosse, poderia ter-me visto. Alguma vez voltarei a estar, assim, de de novo diante de mim?

3. C. tinha longos cabelos escuros e uma voz do Norte, levemente cantada. Lembro-me de isso e, ainda,de algumas poucas palavras e de uma respiração ao telefone respirando.

Telefonara para dizer-me, entre mais coisas, que o melhor era eu fazer como se ela, e eu também, tivéssemos morrido há muito e lembrar-me de tudo (já não me lembro de quê) como de um vago sonho sonhado por outras duas pessoas, ou como se eu próprio fosse outra pessoa lembrando-se. Não era (não sei se lhe disse eu isso ou ela quem mo disse a mim) algo que se dissesse a alguém com 20 anos, mas era o género de coisa que só alguém com 20 anos pode completamente compreender. Lembro-me de que comprei, por esses dias, uma camisola castanha, de lã, e de que pensei então: «A quem falarei agora de todas as coisas sem importância?» A solidão é uma sôfrega evidência, alimenta-se de pequenos materiais, de circustâncias e de passagens, devorando a vida por onde ela é mais óbvia: por dentro.

Assim morremos os dois, tu e eu. Como poderíamos nós, ao telefone, saber que falávamos já, distantemente, de dois estranhos?


Agora o mundo é pequeno e incompreensível. Lembro-me (não sei quem) de quando o mundo e o tempo eram imensos e de quando também eu era imenso. As palavras podiam, então, conter inteiramente o destino:


- Fala-me, não pares de falar. Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.


- Somos reais, vês? - E seguravas-me na mão, sossegando-me, ou pousavas levemente a mão sobre a minha cabeça para eu adormecer.


[...]


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag. 263, 264, 265, Assírio & Alvim, 2001
imagem: Carla Salgueiro

muda de vida

terça-feira, setembro 29

Sei muito bem


(Sei muito bem que na infância de toda

[a gente houve um jardim

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos

[era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,

Mas se eu pedi amor, porque é que me

[trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Fernando Pessoa
imagem: Google

desenhos de Leila Pugnaloni em livro


[vou antecipar a minha viagem ao Rio de Janeiro...mais concretamente para daqui a um mês :) mas enquanto não partimos, podemos sempre deliciar os sentidos aqui LIN DOS. muito lindos...]

o correio está atrasado

só para agradecer as cartas. a quem as escreveu. adorei. e, com tempo, responderei. claro:)

segunda-feira, setembro 28

da inveja


1. Tranquilize-se: não é uma característica marcadamente portuguesa. É mais...marcadamente humana.

2. É um dos sete pecados capitais

3.O neurocientista japonês Hidehiko Takahashi, do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, Tóquio, descobriu onde se situam, no cérebro, os neurónios associados à inveja: na região do córtex anterior. Curiosamente, o mesmo local onde se processa a dor física.

4. Os psicanalistas distinguem dois tipos de inveja - construtiva e destrutiva - e dentro da destrutiva dois subtipos: depressiva e hostil.

5.Entre sites e blogs sobre o tema, gostámos especialmente da Inveja do Biquíni, da Catalina, "o alter ego de uma menina muito comilona" conta a sua "saga rumo a um bikini bem pequenininho que me assombra há muito tempo".

6. A revista brasileira "Isto é" perguntou em edição recente "porque há pessoas muito invejosas e outras que passam a vida quase sem sentir essa emoção?". A psicóloga Sueli Damergian, da Universidade de São Paulo (USP), respondeu:"A inveja é sempre fruto da admiração. Se ela ficar restrita a isso, pode funcionar como impulso para o desenvolvimento. Mas "se o impulso destrutivo for muito forte, o invejoso passa a viver a vida do outro e isso pode ser danoso tanto para ele quanto para o invejado".

7. Foi estudada pela psicanalista austríaca Melanie Klein (1882 - 1960) , que no livro "Inveja e Gratidão" conta a história de um homem que invejava profundamente o seu vizinho. Um dia encontrou uma fada que lhe deu a oportunidade de pedir um desejo. Havia apenas um pequeno senão: o desejo também seria concedido ao invejado vizinho, e em dobro. O invejoso não hesitou: pediu à fada que lhe arrancasse um olho...


in Revista Nós Invejosos, nº 21

domingo, setembro 27

É preciso esquecer devagar


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo.Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doida, devidamente honrada. É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos moí mesmo e que nos da cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrrássemos da carga que lhe damos, aceitando o que não tem solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distrairmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos, amigos, livros e copos, pagam-se depois em conduídas lembranças a dobrar.Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais falta das pessoas que amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade. A felicidades faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos participar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam de afastamento para poderem continuar. Afonso Lopes Vieira dizia que Portugal estava tão mal que era preciso exilar-se para poder continuar a Pátria dele. Deixar de vê-la para ter vontade de a ver. Às vezes, a presença do objecto amado provoça a interrupção do amor. É a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa a aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar, é preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber.E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até. Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sítio onde se tenha sido feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem só conseguem amar-se bem quando não se dão. Mas como esquecer? como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio de remoinho de erros que nos resolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor - temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, abandonam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquece-las, é preciso chora-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar como ainda temos esperanças de contorná-la. Nos uivos da mulheres nas praias da Nazaré não há "histerias" nem "ignorância" nem "fingimentos". Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me fazes, os anestesiados temos medo de enfrentar.Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia - só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o fôlego.Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado normal. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somo feitos para aguentar com ela.Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isto conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste inexterminável, uma barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer, é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue, dar um pedacinho de carne.E mesmo assim, mesmo magoando, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia da nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho. Quanto mais fácil amar e lembrar alguém - uma mãe, um filho, um grande amor - mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo. Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e com paciência, aqueles que amámos com paciência, aqueles que amámos sinceramente que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem. E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde? Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar! Aí, está o sofrimento maior de todos. O luto verdadeiro. Aí está a maior das felicidades.

Miguel Esteves Cardoso in Último Volume, Assírio & Alvim, 1996
imagem: Sonja Valentina

sábado, setembro 26

a noite pede música

esta do Tom Waits... do filme abaixo...e porque não consegui retirar Hold On...

a poesia por Roberto Benigni

" O Tigre e a Neve". aqui podem ler-se diversas opiniões sobre este filme comovente...

[o caminho de casa]


«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).


Volto a casa.

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou um sentimento.


Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;


talvez (quem sabe?)

algum sentido.


Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.


Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag.205, Assírio e Alvim, 2001
imagem: Google

sexta-feira, setembro 25

Deixem os oxímoros para os poetas, senhores políticos


Ando eu a dizer - e tenho testemunhas - qual arruada, qual carapuça... Se ainda fosse uma arrozada...de tamboril, por exemplo...

Ora leiam...quem sabe, sabe... :)


”Arruada” e “asfixia democrática” inaceitáveis em português
A campanha eleitoral deu sinais de que o termo “arruada”poderá entrar em definitivo no léxico político-partidário. Vários “jornalistas-seniores” ouvidos pelo Página1 apontam para que a utilização do termo tenha surgido na década de 80, nas campanhas da CDU, mas “arruada”
consta hoje das agendas de todos os partidos. O linguista Salvato Trigo diz, contudo, ser errado o uso da expressão. Sendo certo que “muitas vezes, o uso acaba por consagrar normas”, o termo “arruada” é “canhestro” não estando sequer ”consagrado” nos dicionários.
O reitor da Universidade Fernando Pessoa diz que a alternativa correcta seria “passeata”, termo que não define apenas um passeio ligeiro, já que “também pode ter a significação de uma marcha colectiva”. Salvato Trigo deixa ao Página1 outro reparo sobre a expressão “asfixia democrática”, agora corrente. Trata-se, segundo Trigo, de uma expressão “semântica e sintacticamente errada”, porque “um termo anula o outro”.“Ou há democracia ou há asfixia”, sublinha o reitor da
Fernando Pessoa, defendendo que “não é aceitável conjugar dois termos que são a contradição um do outro, aquilo a que se chama, vulgarmente, em retórica um
oxímoro”. O oxímoro aceita-se “no discurso poético, mas não é possível usá-lo num discurso político sério”, uma vez que “o substantivo não é acompanhado por um adjectivo pertinente”.

Retirado do Página 1 com vénia ;)
imagem: The wall of no-words” © Alberto G. Baccelli

É brando o dia...



É brando o dia, brando o vento.

É brando o sol e brando o céu.

Assim fosse meu pensamento!

Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias

Deste céu limpo e este ar sem mim

Intervêm sonhos e memórias...

Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.

Existe tudo porque existo.

Há porque vemos.

E tudo é isto, tudo é isto!


Fernando Pessoa
imagem: Ana Jeremias [devidamente roubada à Devida Comédia)

fotografia + declaração de amor




é uma fotografia como nunca, antes, tinha visto... novas tecnoligias é o que é...

nota 1.[obrigada Nina. não por este e-mail - espectacular - não por todos os e-mails que, tantas vezes, são o sorriso de paz do meu dia.
obrigada por existir na minha vida. por existir agora, hoje, sempre. obrigada por tudo que me ensina. obrigada pela ternura. obrigada pelo exemplo de vida. gosto tanto tudo íssimo de si. tanto que nem sei dizer quanto. olhe: é a sogrinha com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir... :)]
nota2: leve a flor, é para si ;)

quinta-feira, setembro 24

Cinco


Cinco,

Cinco crianças que têm o mesmo de uma,

Uma que tem mais de cinco.

Cinco mil em entretenimento,

Outras sem cinco por dia.

Cinco dias de escola a cinco mil por ano,

Cinco vezes sem futuro,

Cinco,

Sinto,

Sim é isso que sinto.

Cinco estrelas no céu que não vêem,

Cinco momentos dispersos,

Cinco olhares de sorriso solto,

Cinco minutos sem conversa,

Cinco palavras que ouço,

Sem sentir o que me dizem.

Cinco anos passados,

Somente Cinco.

Cinco pedaços sem ti,

Sem mim, sem nada.


Jorge Gracia Pereira

quarta-feira, setembro 23

O sétimo dia [excerto de uma crónica]


Queria escrever sobre a dor. As diferentes cores da dor. Quando no hospital, em Nova Iorque, todos os dias o cancro levava os nossos meninos, eu olhava nos olhos da enfermeira Mary, a mulher que conheci que mais se parecia com um anjo, e perguntava-lhe:

"E a dor? Onde a pomos?", sabendo que já não havia espaço para mais. Às vezes, estava tão cansado, tão cansado...A Mary é irlandesa e tem uma fé inabalável. Confrontada com a crueldade de Deus, dizia que estava de certo muito ocupado, num Universo tão grande, que até Ele, por vezes, se distraía.

Todos os meses, na capela do hospital, médicos e enfermeiras juntavam-se para lembrar as crianças que tinham partido. A propósito de cada uma delas se contava uma história, uma graça, um episódio de coragem. A dor era lavada com lágrimas, e a coragem reconstituída no abraço que nos fazia partilhar a humanidade. Durante a cerimónia, um dos médicos mais velhos, e o que mais teimava disfarçar a sua enorme ternura, tocava piano. A dor comia bocadinhos de nós. Partes de mim deixaram de existir. A certeza que fica é que para a vida valer a pena é necessário amar e ser amado, e ter muito cuidado com o cristal de que os outros são feitos. Os outros sim, que nós somos de aço. Excepto, claro, quando choramos.

(...)

Nuno Lobo Antunes, Neuropediatra
imagem: Google

a felicidade e a felicidade completa




felicidade é:

alguém arriscar tomar um café connosco, sem telefonar e encontrar-nos no meio do turbilhão.

felicidade completa é:

alguém arriscar tomar café connosco, sem telefonar e encontrar-nos no meio do turbilhão e oferecer-nos uma caixa de bombons. da ARCÁDIA.

a noite pede fado

...este. da Ana Moura.

segunda-feira, setembro 21

o poema de Eugénio


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
imagem: Carla Salgueiro

A crise dos falhanços espectaculares

Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão.

Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão.

Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”.

Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos.
O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda.
A vingança é um prato que não se serve frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito.

O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Quem as leria, de resto, se tivessem mais de 140 caracteres?

Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela.

Miguel Carvalho in Revista Egoísta
imagem: Google

domingo, setembro 20

Síntese da felicidade


Desejo a você...

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade
[para a querida Xana, com um um xi-coração]