sábado, janeiro 16

gosto de ressuscitar palavras


[...] Surpreendentemente, atendendo à hora tardia, a tasca estava cheia. Cheirava a fritos. Ouviam-se gargalhadas. Frases Soltas. A uma das mesas dois ou três tipos cantavam antigos sucessos angolanos e brasileiros. Um deles dedilhava mansamente um violão. Outro batucava no tampo da mesa. O taxista informou-nos que só havia lugares ao fundo, a um dos cantos, e ajudou-nos a chegar lá. Formávamos um grupo um pouco bizarro, mas ninguém pareceu reparar em nós. Luanda, já o disse, é um alfobre de personagens insólitos.


(Gosto de ressuscitar palavras. Nos dias que correm poucas pessoas se servem da palavra alfobre, por exemplo, a não ser um ou outro eclesiasta da velha escola. Creio que se aplica particularmente bem ao presente contexto, sobretudo atendendo à possível etimologia árabe - escavação, buraco, fossa.)
José Eduardo Agualusa in Barroco Tropical, pag. 197, Dom Quixote, 2009
imagem: cidade de Luanda [desconheço o autor]

os bons existem. e carregam o fogo.


sim, sim, excelente fotografia. e uma boa banda sonora. mas, mais uma vez, o livro é que me convence. e emociona. sim, sim, os bons existem. afinal, os bons existem mesmo. e carregam o fogo. mesmo quando tudo à volta é - ou parece ser - a extinção definitiva do azul.

sexta-feira, janeiro 15

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade e na infelicidade
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro in Poesia,pag.55, Assírio & Alvim

imagem: José P. Dionisio

Livro dos Medos


podendo vou com, pelo menos, 4 dos meus 6 sobrinhos :) sem medo!

sábado, dia 16, às 17 horas, um novo livro apresentado pelo "brincador", conhecido também como Álvaro Magalhães :)

LIVRO DOS MEDOS

o convite diz assim:

«O espaço e o projecto Papa-Livros são deveras interessantes e inovadores, tanto para crescido ver.... como para criança apreciar!!!!
Fica no Centro Comercial Cristal Park, ali em frente do Museu Nacional Soares Reis»

quinta-feira, janeiro 14

Valter Hugo Mãe nas Quintas de Leitura


«O Poeta valter hugo mãe é o próximo convidado das "Quintas de Leitura". BOMBA, assim se intitula a sessão, será uma grande festa da poesia, construída em torno da figura e da obra deste grande nome da literatura portuguesa.

Recordaremos, nos próximos dias, alguns textos emblemáticos da obra de valter hugo mãe.


erótica de fã

quero não ficar espantado se me nascer
um filho de tanto ouvir caetano veloso,
quero não explicar nada sobre este
tão grande amor



nossa senhora das andorinhas cansadas

no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada

(poemas de valter hugo mãe / pornografia erudita / cosmorama edições)

poste integralmente roubado aqui

AMI parte em missão para o Haiti


«Uma missão da Assistência Médica Internacional (AMI) parte esta quinta-feira para o Haiti para levar a cabo uma acção no terreno. O intuito da deslocação dos dois elementos da AMI, que esta quinta-feira partem para o Haiti, é estabelecer uma intervenção no terreno, numa acção concertada com duas organizações não governamentais (ONG) locais. Por ser uma região com grande propensão a catástrofes naturais, e à fraca capacidade do país de fazer face às mesmas, a AMI realizou em Setembro do ano passado uma missão baseada na prevenção de fenómenos consequentes das alterações climáticas. No Haiti, um dos países mais pobres do mundo, 53,9 por cento da população vive em situação de pobreza extrema, com menos de um dólar por dia.»

terça-feira, janeiro 12

quando ontem me disseram...

Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia! Tínhamos esquecido isso, nós todos, nós todos que o conhecíamos do mesmo modo que todos o não conheceram. Paixões? Angústias? [...] É quanto me resta, a mim, de quem tanto sentiu que se matou a sentir, porque, enfim, de outra coisa se não deve matar alguém...

Fernando Pessoa

imagem: daqui, do excelente blog de Carlos Romão

poesia de João Negreiros no TUM


[clicar no cartaz para aumentar]
diz assim:
«Depois do grande sucesso de “Inspiração é Respirar”, o Teatro Universitário do Minho aborda de novo o imaginário lírico de João Negreiros. O espectáculo é uma fusão de poemas antigos e inéditos. O naturalismo, a emoção aliados à dimensão sonora da poesia dão a toda a performance uma sensação visceral e palpável, aproximando os poemas dos anseios, medos e problemáticas do próprio público.
É um espectáculo alegre e soturno, épico e intimista, hilariante e dramático. As vozes de tessituras diferentes fornecem uma paleta sonora muito abrangente dando cor e alma à literatura que já de si a possui. Momentos únicos com os quais o público se identificará.
É a poesia para pessoas primeiro e para poetas depois.
É a poesia para pessoas primeiro e para leitores depois.
É a poesia para pessoas primeiro e para pessoas agora.»

um restaurante de comer e chorar por mais



ouvi dizer que o Buhle é um restaurante de comer e chorar por mais. no que respeita à arquitectura. ou será à gastronomia? ou a ambas?

afinal, o prémio ganho - um dos melhores restaurantes do mundo - foi pela arquitectura, certo?

dizem, também, que Almodôvar esteve no júri...bom...quem me explica?

mas que o restaurante é lindo, lindo de morrer... lá isso é! os arquitectos estão de parabéns, sem dúvida alguma.

imagens daqui

quem me diz onde é a estrada?

domingo, janeiro 10

não deixe que a pobreza...


o ANO EUROPEU DO COMBATE À POBREZA E À EXCLUSÃO SOCIAL abre, oficialmente, no próximo dia 21 de Janeiro, em Madrid.
e é bem preciso. que se tomem. as medidas. é é bem preciso. acreditar que é possível. acreditar e agir. afinal, 80 milhões de pessoas na União Europeia vivem em situação de pobreza, 19 milhões são crianças.

nostálgicos, nós?

é das minhas capas de eleição, esta, de vinil :) ...e até eu e os meus botões, não resistimos a escolher a década da saudade..., a nossa, ao ler os textos de Ana Catarina Pereira.
e gostei muitíssimo de O CHEIRO DO TEMPO.
uma viagem nas asas da memória olfactiva de Pedro Rolo Duarte.

e a sua nostalgia - se é que a sente - é de que tempo?

parabéns, manos :)

pois é...eles já foram assim! só a nossa mãe os distinguia :) . não, tou a brincar! todos nós os distinguíamos. um menino e uma menina são, mesmo quando gémeos, diferentes. hoje, fazem 32 anos. é verdade! e são lindos. e são meus. muito meus :) parabéns, manos! ...muitos anos de vida.

sábado, janeiro 9

E daí? Eu adoro voar!

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto. Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!

Clarice Lispector

imagem: Carlo Nicora

pode parecer que não...

...mas combina lindamente com esta manhã de sol morno e com a minha vontade de ir a lado nenhum. mas faltam-me os jornais... de papel :)

sexta-feira, janeiro 8

"amo-te mais do que apenas mais um dia"

[Eunice Muñoz é uma dádiva.
um presente que, às vezes, chega mesmo em forma de presente!
obrigada Silvia.muito]

já está no Porto. e, ontem, lá estava eu, no Teatro de S. João, de olhos postos no palco, à espera da aparição. e sim, lá estava, a grande Senhora, sózinha, sentada num cadeirão, capaz de deitar o mundo por terra. apenas com a sua presença.

O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO. sim, ontem sim, percebi o título como se fosse a mais transparente das claridades. também eu, devo o conhecimento à antropologia.

«se eu não der os sapatos dele, ele volta para os calçar» sim, poderá funcionar. se eu acreditar. afinal é esse o cerne do pensamento mágico, do raciocínio causal não-cientifico.

claro que saí de lá com a alma um pouco maior. e com meia dúzia de frases nos lábios:

«se te atribuirem um assistente social, é porque estás com um problema».

«aconteceu-me a mim, mas pode acontecer a qualquer um de vós» tão lúcido.

«amo-te mais do que apenas mais um dia». e claro. tão claro. agora.

quinta-feira, janeiro 7

o lado bom da saudade

Talvez o vento
Talvez as marés
Talvez o jeito
De seres como és
Fossem as ondas
A bater baixinho
Lá onde o mar faz o ninho
Estavas na praia
Os gestos discretos
Eram mistérios
De outros alfabetos
Puseste a mesa
Deste-me um lugar
E eu acabei por ficar
Não sei que nome te dar
O teu nome verdadeiro
Menina de olhar o mar
Saudades do mundo inteiro
E tu sorrias
E eu fui ficando
Por mais uns dias (nem me lembro quando)
Contei-te histórias
De tudo o que passei
E outras que eu inventei
Juntaste as mãos
À frente do peito
Disseste adeus
Não perdeste o jeito
De me dizer
Que a eternidade
É o lado bom da saudade
Não sei que nome te dar
O teu nome verdadeiro
Menina de olhar o mar
Saudades do mundo inteiro

João Monge/Luís Represas

imagem: Leila Pugnaloni

a noite pede música

[conta-me histórias daquilo que eu não vi]

quarta-feira, janeiro 6

As cartas do Senhor Mário


Naquele tempo o meu coração estava disfarçado de campainha, no guiador da bicicleta do Senhor Mário. Assim tipo uma anémona pequenina, fora do seu habitat natural. Só que era o meu coração camuflado ali, à mão do carteiro.
Ele subia a estrada, com a bicicleta ao seu lado, fazendo-a deslizar nos paralelos de granito. No Verão, o esforço era maior, sob o sol do meio-dia. Era mais ou menos a hora a que chegava. Encostava a bicicleta ao muro do portão, tirava o lenço do bolso e passava-o na testa como se fosse um limpa pára-brisas. Ajeitava o boné, sorria e tirava as cartas de um dos sacos de couro puídos, apoiados na traseira da bicicleta.
Voltava a sorrir e, às vezes, colocava as cartas em leque, como se fossem cartas de jogar, e tirava a minha, como quem tira um ás de copas. E eu, ali a sorrir-lhe, como se ele fosse o escritor da minha carta; ou como se ele fosse o homem mais bondoso do mundo. O Senhor Mário, carteiro, não era de muitas palavras. Talvez por as carregar todos os dias, aos milhares. Pensava eu. Era mais de sorrisos. Sorrisos assim, como os selos das cartas. Diferentes. Todos diferentes. Nele, só a farda era sempre a mesma. Como a camisa, sempre azul que vestia. E o boné que acondicionava na cabeça. Sempre do mesmo modo.
A primeira vez que vi O Carteiro de Pablo Neruda, também me emocionei por me recordar do Senhor Mário. E da pena que senti, por nunca ter sabido o apelido do carteiro da minha vida. Jiménez, não era de certeza.
Trrim, trrim, trrim. A campainha da bicicleta do Senhor Mário, era a alavanca dos meus dias adolescentes. Ainda hoje é a onomatopeia da minha vida!
Desde miúda que as cartas - todas as cartas – me seduzem. Quando comecei a recebe-las, dirigidas a mim, percebi o porquê da minha intuição. Era o mundo feito abecedário. Muito nosso.
Comecei por receber as cartas da madrinha. Eram envelopes de ternura. Letras miudinhas, sempre cheias de saudade. De beijinhos e santinhos. Foi a madrinha que me ensinou a rezar. E a gostar de pão branco. Como ela. Pedia sempre para me portar bem, para obedecer aos papás. Para não me esquecer do meu anjo da guarda e para lhe enviar desenhos. Depois, mais tarde, eram as cartas e os postais das amigas, durante as férias. Cheias de aventuras e confissões. Repletas de tempo e, tantas vezes, numa fúria contra o tempo por nunca mais nos trazerem os dezoito anos. Como se viver dependesse deles. Daí, às cartas de amor, rídiculas, como convém, não faltou muito.
Um dia, depois de sorrir, o Senhor Mário disse:
- o rapaz é poeta, gosta de escrever. E é de longe! Ah pois é!
E eu corei e virei-lhe as costas, para ele não dar conta, mais rápida do que nunca, na corrida para o lago. Gostava de ler as cartas com os peixes vermelhos perto. No silêncio perfumado do quintal, encostada à tangerineira. Ou então, no terraço, onde a linha do comboio fazia de horizonte. Um dia, o Senhor Mário entregou-me uma carta precedida de um
- diga que sinto muito, menina. E não sorriu. Como de costume. Foi nesse dia que percebi que as cartas também nos deixavam tristes, profundamente tristes, principalmente quando a tristeza era anunciada numa lista preta, no canto superior do envelope. E toda a gente ficava a saber da nossa tristeza, como se a carta fosse um funeral.
Outras vezes, a minha mãe recebia cartas que já tinham andado de avião, antes de viajarem na bicicleta do Senhor Mário. Eram azuis, um azul claro, bordado a vermelho a toda a volta. Faziam-me pensar, essas cartas que atravessavam nuvens para chegar.
Uma vez, o carteiro entregou-me um telegrama. Muito leve. Devia ser das poucas palavras. E então, fiquei certa de que não é preciso muito para a felicidade ser imensa.
Era assim no tempo em que o Senhor Mário, sem saber, andava com o meu coração disfarçado de campainha, no guiador da sua bicicleta. Com milhares de palavras no saco de couro. Cartas com mil histórias dentro. Cartas vividas, que ele vivia.
É o que me ocorre sempre, agora, quando vou à caixa do correio, sem correr. Está atafulhada de publicidade, cartas do banco, da água, da luz, de convites dirigidos ou maillings massivos.
Às vezes, de longe a longe, chega uma carta para mim. De quem sabe que as gosto de ler. A contar-me a vida a tinta preta ou azul. Conforme. Sorrio sempre. Imagino que corro para o lago, onde vivem, ainda, os meus peixes vermelhos. Para a ler no silêncio perfumado que me habita a memória. Mas não sei o nome do carteiro. Uma mulher veloz, de colete CTT. Estaciona o carro, entrega a correspondência. Sem o sorriso cúmplice com que o Senhor Mário selava as cartas.
As cartas de uma vida. Arrumadas numa caixa. Só para ter a certeza de que não sonhei.
in Nós Escritores, revista do i
imagem: Il Postino

segunda-feira, janeiro 4

Lhasa de Sela

Lhasa de Sela

[...]
E, olhos postos em ti, digo de rastos:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
imagem: jeneregrettnien

este blog está de luto


este blog está de luto. Lhasa de Sela morreu.
estou profundamente triste. e sem palavras.

sábado, janeiro 2

a noite pede música





enquanto não vou, danço!

[roubado ao querido Marcas, que se mudou para Buenos Aires :)]

sei a clareza dos teus gestos


[...] sei a clareza dos teus gestos, a eternidade do indizível,
mas não te sei inventar sem ritmo, sem pulso, sem toque.
para saber se o mundo se acende; para saber se o desejo é breve,
preciso de saber como são os teus dias.
como são os teus dias, a tua dor contra o meu peito?
[...]

imagem: Leila Pugnaloni

até aos Reis...

" até aos Reis, ainda é Natal "... diz o povo, cá por estas bandas...
[eu só espero que os meus Reis Magos cheguem, pelo menos, até ao dia 6! um a Lisboa, outro à Nova Zelândia e, outro ainda, a Curitiba...é só seguirem a estrela...]

meio cheio :)


café, torradas e Nós OPTIMISTAS :) para começar o ano. ah! e, claro, uns raios de sol a entrarem pela janela. ainda que tímidos. tão bom.
e um mar, convicto, um tanto furioso, ali ao fundo.
bom ano!

quarta-feira, dezembro 30

desejo [vos] para 2010


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
Vitor Hugo
imagem: Sonja Valentina

lindo

terça-feira, dezembro 29

telegramas em vez de cartas

está aí, em cima da mesa. como se fosse uma carta. lê. joga. como queiras.
é inteiramente teu.
[desta vez, a felicidade, para chegar, atravessou o oceano. tanto.tudo. íssimo]

Mas quem disse que é proibido estar triste?


Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza. Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não tem remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.

Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio. Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida: além de triste, irás sentir te culpada. E tu não tens culpa de estar triste. Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?

Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: «tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro».

Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.

E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico: couve flor em brumas. Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vaia cozendo até amaciar. E em volta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.

Héctor Abad Faciolince in Receitas de Amor para Mulheres Tristes
imagem: Nicoletta Ceccoli

receitas de amor para mulheres tristes

já cá está. mais um de Héctor Abad Faciolince.
[eu, este ano, sem saber, portei-me mesmo bem! :)]

encosta-te a mim

respeto a los valores humanos

(...) Con ocasión del nuevo año 2010 y con mis mejores felicitaciones y mis más sinceros deseos de felicidad, buena salud y sosiego, me dirijo a todos vosotros uno a uno, a todo el equipo de solidarios de la Plataforma de Solidaridad, del Centro Robert Kennedy de Justicia y Derechos Humanos, de las Asociaciones de Amistad con el Pueblo Saharaui en Europa, Estados Unidos, África, Australia, América Latina y Asia; a las personalidades premiadas con el Premio Nobel de la Paz, a los abogados, médicos, artistas y cineastas; a los escritores, profesores y alumnos de las universidades; a las organizaciones internacionales como Amnistía Internacional, Human Rights Watch y Front Line; a las instituciones internacionales como las Naciones Unidas, el Alto Comisionado para los Derechos Humanos, el Alto Comisionado para los Refugiados y el Parlamento Europeo; al Parlamento Español y al Parlamento Portugués, a los movimientos feministas, a los sindicatos y a los partidos políticos y Ayuntamientos españoles e italianos y de otros países; a los medios de comunicación españoles y argelinos y a todas las plumas libres en todo el mundo que lograron abrir una Lucerna en el velo de oscuridad tejido por la grotesca propaganda del Majzén; a la comunidad saharaui y de manera especial a la comunidad saharaui de Lanzarote y al pueblo de Lanzarote; a todos vosotros y a quienes olvidé mencionar, por lo que me excuso, os felicito por el éxito de la épica batalla del retorno y os expreso mi agradecimiento y mi reconocimiento en mi propio nombre y en el de todo el pueblo saharaui que, hoy por hoy, se enorgullece por el aumento del círculo de sus defensores y la esperanza le acompaña para continuar ejerciendo más presión con el fin de liberar al grupo de los siete encarcelados en la ciudad marroquí de Salé y a todos los presos políticos saharauis de las demás cárceles marroquíes, así como para descubrir el paradero de los desaparecidos saharauis, mientras espera que se satisfaga su exigencia de disfrutar de su legítimo derecho a la autodeterminación mediante la celebración de un referéndum libre, justo y transparente.
Y por último, deseo con todo corazón que el nuevo año 2010 sea un año de paz y de respeto a los valores humanos así como el año del triunfo de la justicia internacional.
Aminatou Haidar
[Mensagem distribuída pela Associação de Amizade Portugal - Sahara Ocidental]

a noite pede música

segunda-feira, dezembro 28

um Natal "conta-me como foi"


primeiro foi um alguidar cheio de "conta-me como foi". um alguidar em alumínio. como eram dantes os alguidares. lá dentro: o meu fogãozinho PEPE, os meus "calquitos", as minhas guloseimas - pastilhas Gorila e guarda-chuvas Regina - os meus postais, as minhas estampas, os meus cadernos, os meus lápis Viarco, a minha pandeireta do gato, a minha forma, em forma de menina, com a receita das bolachinhas de Natal! depois deste belo presente, vindo directamente de A Vida Portuguesa para as minhas mãos, recebi, ainda, esta imagem [da Rita com as vogais, mas com o cabelo loiro...um dia explico] feita quadro de parede: a página sete do meu livro de leitura da primeira classe!

[sabem, o meu livro de leitura que há uns tempos encontrei por acaso num blog?]

já eu estava fora de mim de tanta alegria, com as memórias na ponta dos dedos, dentro do olhar, à volta do coração, toda eu tão memória viva - como se fosse ontem - que já nem sabia se era eu ou aquela outra Marta que corria, manhã cedo, para ver o que o Menino Jesus tinha deixado no sapatinho.

[sim, o Menino Jesus. porque a minha mãe dizia que o Pai Natal, sim senhora, muito bonito, mas era um mero contratado. quem decidia mesmo era o Menino Jesus. e era a ele que eu e os meus irmãos remetíamos os pedidos. melhor dizendo: os sonhos. depois, mediante o nosso comportamento, durante o ano, o Menino Jesus decidiria o que nos deixaria de olhos esbugalhados e coração aos pulos]

foi assim, este ano. mas foi ainda mais incrível. porque eu não pedi nada e já não acredito que o Pai Natal é o ajudante do Menino Jesus. já nem sequer vou ao presépio cobrir o Menino com algodão em rama para que ele não tenha frio. nem deixo chocolates ao Pai Natal. para lhe agradecer.

mas acredito em milagres. e em pessoas. e em anjos.

e depois, quando já não havia mais nada de extraordinário para acontecer no meu Natal - a não ser brincar com os meus sobrinhos - eis que surge, embrulhado num papel sem cor, a capa cor de laranja do meu livro de leitura da primeira classe!

as 127 páginas do meu livro de leitura da primeira classe! esse mesmo!

as lições das letras todas todas. todas as lições. mais os desenhos da Maria Keil e do Luís Filipe de Abreu. os desenhos que eu copiava e que reconheceria em qualquer parte do mundo.
as palavras que eu aprendi. as palavras iniciais. as frases. aos poucos, as histórias. curtas. simples. muito iguais à vida.

«o p de pá. o i de igreja. o l de lua. e de lula e de lupa.

a tia tapa o pote. ela muda o mapa.

a avó ri. o avô já bebeu o café.

o bolo é de pêssego. a Teresa tirou uma rosa do vaso.

a Cecília foi ao cinema.

o meu véu é de tule. a rã coaxa de noite.

o dedal. o caracol. a mãe aquece água para o chá.

a Paula chegou da rua.»


a Marta está tão feliz!

quinta-feira, dezembro 24

Feliz Natal

a todos os queridos visitantes, amigos, familiares que passam por este meu-mini-planeta, votos de FELIZ NATAL.
TUDO DE BOM. neste e em todos os outros dias do ano.
paz.amor.saúde. e, claro, muitas e boas iguarias :)
imagem daqui

quarta-feira, dezembro 23

das meias e sapatos na lareira



«Diz a lenda que São Nicolau (o santo que inspirou a figura do Pai Natal) deixou os seus primeiros presentes (moedas de ouro) nas meias de três meninas pobres que precisavam de dinheiro para o dote de casamento. Elas tinham colocado as suas meias junto da lareira, para secarem, e na manhã do dia 25 de Dezembro encontraram-nas cheias de moedas de ouro.
Desta forma, dizem, surgiu a tradição de se pendurarem as meias na lareira.
São Nicolau foi um santo muito bondoso que viveu no século V, é conhecido também como o santo das crianças e o seu dia é comemorado a 6 de Dezembro.


Também há uma lenda para explicar o costume de, no Natal, colocar sobre o fogão o sapato que, depois, receberá as prendas.
Quando, na noite de 24 de Dezembro,os irmãos Crispim e Crispiniano fugiram às perseguições, em Crepy-Valois, fartaram-se de bater às portas das casas, mas ninguém lhes deu abrigo.
Acolheu-os, numa cabana escondida num bosque, quase a desmoronar-se, uma viúva que vivia miseravelmente com o filho. Deu-lhes uma tigela de caldo de couves e dois nacos de pão negro.
Contentes, os dois irmãos, que eram soqueiros, pediram a Deus que recompensasse a generosidade da viúva.
Crispim viu a um canto um par de socos velhos, do rapazinho. Fez um par de socos novos e colocou-os à beira da pedra da lareira, enquanto a viúva e o filho dormiam. Quando acordaram repararam que os dois hóspedes tinham desaparecido e na lareira estava um par de socos novos, transbordante de moedas de ouro.
Desde o século III, segundo a lenda, todas as crianças põem os socos na lareira, na esperança de que se repita o milagre feito por intermédio dos santos padroeiros dos sapateiros, São Crispim e São Crispiniano».
Silva Araújo in Viver o Natal, Colectânea de teatros, canções, poemas, músicas e tradições populares

terça-feira, dezembro 22

quando um homem quiser

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

José Carlos Ary dos Santos


imagem: Dorothe Lang

momentos

acabei de comer a mais deliciosa tarte de limão deste planeta e arredores.
feita pela Nina :) claro!

imagem: flagrante delícia

a noite pede música


ontem, quando cheguei, tinha os pés cheios de areia.

ou seria o coração cheio de mar?

não estou certa.

domingo, dezembro 20

a era MULTI


há por aí umas infra-estruturas, geralmente de betão municipal, que me fazem impressão.

já deram de caras com alguma. de certeza.

fui a Guimarães, jantar a casa de uns amigos. casa nova. onde fica?
- perto do pavilhão multiusos.

sinalética rodoviária indica o dito pavilhão. o multiusos.

o fenómeno não é recente.

eu não reagia assim ao prefixo multi. juro que não.

até o acarinhava. que sou de ciências sociais.

agora, desconfio dele absurdamente. e no que diz respeito ao multiusos, então, fico desvairada. tudo nos pode levar a estes locais onde tudo pode acontecer.

concertos, teatros, feiras diversas, comícios, circos, missas campais, exposições de longa e curta duração... enfim, qualquer evento cultural, comercial, desportivo, político...

uma monotonia. um desespero.

temo pela função dos lugares. temo pela [des] caracterização dos espaços.

arrepio-me só de imaginar que os teatros desaparecem, os templos desaparecem, os museus desaparecem, as casas da música desaparecem, os pavilhões desportivos desaparecem e, no lugar deles, surge, em cada vila, cidade, planeta, um multiusos gigante capaz de albergar tudo e toda a gente.

mais do que nunca estamos na era multi.

multiusos

multifunções

multifacetado

multidisciplinar

a ideia de muito, expressa pelo prefixo multi enerva-me. deixa-me ansiosa.

na tmn, dizia eu, [depois de o meu telemóvel dar de si]

- quero, por favor, um telemóvel. um telemóvel com o menor número de funções possível.

a menina “até já” olhava fixamente para mim. sem se mexer. os seus olhos diziam

- importa-se de repetir, sua louca alucinada?

- eu quero um telemóvel básico: que não dê para bater a sopa, que não dê para pintar os lábios, que não dê para secar o cabelo, que não dê para tirar café, que não dê para pendurar quadros. que não faça de GPS. um telemóvel convicto das suas funções de telemóvel. sem desvios de personalidade. sem comportamentos desviantes. tem algum?

temo pela proliferação do multi.

temo pela descaracterização dos objectos e dos edifícios.

temo pela função das coisas e dos lugares.

temo pela minha sanidade mental.

eu temo que o princípio do canivete suiço seja aplicado a tudo.
a tudo e a mais a alguma coisa.

Coração sem imagens

ao António Ramos Rosa
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho in Poemas de Amor, Organização e Prefácio Inês Pedrosa, Publicações D. Quixote, 2002

a noite pede música

sábado, dezembro 19

este fim-de-semana...

é especial! muito especial! os desenhos são de António Jorge Gonçalves. tanto. tudo. íssimo. a edição, como sempre, de Pedro Rolo Duarte. a não perder...digo eu ;)

Casa das Histórias


sexta-feira, dezembro 11

Contra a pobreza, marchar, marchar


2010 será o Ano Europeu de Luta Contra a Pobreza e Exclusão Social. antecipando a sua abertura oficial um conjunto de organizações não governamentais [ONG`s] está a organizar uma marcha, dia 17 de Dezembro, em Lisboa. O programa está aqui.
Numa Europa que conta 79 milhões de pobres é bom que não fiquemos INDIFERENTES!
Se podemos marchar, ao menos, marchemos.

Logo, às 21, pois claro!

Logo, às 21 horas, na Leitura do Cidade do Porto. Claro que não faltarei :)

Por um sorriso


Mimos de Natal - POR UM SORRISO - começa hoje, na Alfândega do Porto, e encerra no próximo Domingo. É um espaço multi produto onde pode comprar todos os presentes para o Natal. Todos os presentes não é bem assim... é mais mimos. Mimos de Natal. Coisas especiais para pessoas especiais. O parque de estacionamento é gratuito e a entrada, em parte, reverte a favor do projecto POR UM SORRISO, ou seja, para as crianças desfavorecidas do Centro Histórico do Porto. Mais aqui. E, agora, passe pela Alfândega. Contribua para um sorriso :)

com um vestido preto...


um vestido distinto para cada ocasião. tão simples. tão prático. principalmente nos dias em que acordo com vontade de usar farda...só para não pensar no que vestir!
e como dizia uma senhora muito querida dos palcos portugueses...com um vestido preto...eu nunca me comprometo ;)

sábado, dezembro 5

rua da saudade




é um disco lindo. que me tem feito companhia. uma homenagem ao poeta Ary dos Santos que, se estivesse vivo, faria anos segunda-feira.

agora, esta música, vai com dedicatória para a Zaclis. ouvi-la converteu esta minha rua, na rua da saudade. o resto, amiga, segue pelo correio :)

a grande notícia

a nossa querida, muito pequenina, muitíssimo forte e absolutamente linda ALEXANDRA
já está em casa :)
[...]
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

Herberto Helder
in Poesia Toda

sexta-feira, dezembro 4

[A] esta gripe...


ou da importância de ter um tapete amplo à porta de casa.
no dia seguinte ao concerto do Rodrigo Leão - e estou grata por isso, por ter sido depois - já a febre estava quase nos enta. dores no corpo, dores de cabeça. tudo normal, portanto. é gripe, pensei eu. tomei ben-u-ron, deitei-me. adiei os compromissos de segunda-feira, contando com os três dias da praxe para me reabilitar. o domingo foi passando, lentamente. e eu esquecida das refeições. pior: quando me lembrei, um enjoo completo. a ideia de me alimentar enjoou-me!!!!então, é gripe A! aliás, estou com os pés para a cova, diagnostiquei. [quem me conhece sabe do que falo] liguei para a linha Saúde 24. enquanto esperava, voltei a ouvir a voz da Celina da Piedade. depois, veio a enfermeira Mónica. absolutamente profissional. e querida. pela descrição deve ser a A, disse. fui a um hospital privado e ao fim de hora e meia, saí de lá com ordem de reclusão e isolamento, uso obrigatório de máscara e uma receita de ben-u-ron e brufen para alternar, de oito em oito horas. ordem para beber muitos líquidos, comer frutas, saladas.
dois dias que não havia forma de a febre não passar a 38, pelo menos. só o nestum com mel era o responsável por eu comer qualquer coisa. até que o meu estômago começou a doer. muito. voltei ao médico. desta vez, ao centro de saúde, onde encontraria a minha médica. saí ao final da tarde. de máscara. evidentemente. uns olham, desconfiados, outros risonhos, outros piedosos... uma senhora, no centro de saúde, em vez de se afastar, como a maior parte das pessoas, aproximou-se e, sentidamente, perguntou-me:
-como é que a menina consegue respirar com isso no focinho? coitadinha...
lá expliquei à senhora que a máscara não impedia a respiração, mas não saiu da minha beira convencida. desejou-me as melhoras e seguiu a sua vida, por outro corredor.
umas gotas de sol [vitamina D], uns comprimidos para o enjoo, magnésio e a suspensão do brufen, eram, agora, as novas instruções. todo o resto se mantinha constante. o isolamento imperativo. tal como a máscara.
novamente em casa, nem ler conseguia. nem ver televisão, nem nada. só dormir.
família e amigos ligavam a saber como estava, o que precisava. nada, nada. obrigada. só preciso ficar melhor. não te apetece nada em especial? não dizia eu, com pena. as gripes sempre foram momentos excelentes para me mimar com um docinho, um salgadinho, um inho culinário qualquer. desta vez. nem chocolate preto me apetecia. nem a aletria, quentinha, da minha mãe. aí, sim, pensei, vou desta.
mas os amigos, alguns, não acreditaram em mim, na minha falta de apetite, e, foi assim que descobri a importância de ter um tapete amplo à porta de casa. foi nesse tapete que aterraram algumas iguarias. ele era bolo rei do Doce Alto, empadinhas da Ribeiro, até um caldo verde do Alcaide. depois telefonavam-me e diziam: vai ao tapete, rápido, antes que o vizinho da frente leve :) são assim, os meus amigos, criativos e profundamente generosos, apesar de não me quererem ver nem pintada ;) nem eu a eles. até segunda-feira. tem de ser. a bem de todos.

5 revelações


Eu já tive... gripe A [estou quase, quase a deixar de ter...até já estou a blogar :) novamente]

Eu nunca... joguei Solitário

Eu sei... muitas coisas inúteis

Eu quero... tanto, tantos nadas

Eu sonho... muito, acordada


aqui está o desafio lançado pelo Crónicas do Rochedo
e eu lanço-o a quem o quiser responder :)

conversas para entender o mundo


o programa Visão Global, da Antena 1, está, agora, em livro. o jornalista Ricardo Alexandre e o embaixador José Cutileiro à conversa... a ver se entendemos o mundo.

mesmo a tempo de o adicionar à lista. de Natal.

a chancela é da Prime Books

colectivarte


acabou de inaugurar. COLECTIVARTE NATAL. estará patente até ao dia 9 de Janeiro.

28 artistas ligados às várias expressões artísticas: pintura, desenho, fotografia e escultura.

Artistas: Abel Quelhas Quintas, Ana Carvalho, Ana Cristina Pinto, Ana Romero, Ari, David Oliveira, Elisabete Ferreira, Emerenciano, Evelina Oliveira, Falcão, Filipe Fonseca, Guilhermina Pereira, Hugo de Almeida, Joni, José Emídio, José Rosinhas, Kasia Gubernat, Kika da Costa Campos, Leonor Feijó, Linda Correia, Maria Rosas, Marta Horta Belo, Olga Santos, Paulo Pimenta, Rui Sousa, Sónia Borges, Veiga Luís, Xaime Fuontes.

[a não perder]