segunda-feira, novembro 23

Cinco Horas


Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto...A garrida

Toda de pedra brunida

Que linda e que fresca é!


Um sifão verde no meio

E, ao seu lado, a fosforeira

Diante do meu copo cheio

Uma bebida ligeira.


(Eu bani sempre os licores

Que acho pouco ornamentais:

Os xaropes têm cores

Mais vivas e mais brutais)


Sobre ela posso escrever

Os meus versos prateados,

Com estranheza dos criados

Que me olham sem perceber...


Sobre ela descanso os braços

Numa atitude alheada,

Buscando pelo ar os traços

Da minha vida passada.


Ou acendendo cigarros,

- Pois há um ano que fumo -

Imaginário presumo

Os meus enredos bizarros.


(E se acaso em minha frente

Uma linda mulher brilha,

O fumo da cigarrilha

Vai beijá-la, claramente...)


Um novo freguês que entra

É um novo actor no tablado,

Que o meu olhar fatigado

Nele outro enredo concentra.


E o carmim daquela boca

Que ao fundo descubro, triste,

Na minha ideia persiste

E nunca mais se desloca.


Cinge tais futilidades

A minha recordação,

E destes vislumbres são

As minhas maiores saudades...


(Que história de Oiro tão bela

Na minha vida abortou:

Eu fui herói de novela

Que autor nenhum empregou...)


Nos cafés espero a vida

Que nunca vem ter comigo:

- Não me faz nenhum castigo,

Que o tempo passa em corrida.


Passar tempo é o meu fito,

Ideal que só me resta:

P´ra mim não há melhor festa,

Nem mais nada acho bonito.


Cafés da minha preguiça,

Sois hoje - que galardão! -

Todo o meu campo de acção

E toda a minha cobiça.


Mário de Sá Carneiro


[poema dedicado ao meu absolutamente querido Alfredo Mendes que, amanhã, lança um livro sobre o Piolho, café que assinala este ano, um século]
imagem: Lesser Ury, Abend in Café Bauer, 1898

segunda-feira, maio 4

Os cafés

OS ÓRFÃOS DOS CAFÉS

Tal como Borges escreveu um dia, eu poderia de igual modo dizer: «Nasci noutra cidade que também se chamava Lisboa».Borges diz que recorda o que viu e também o que os pais lhe contaram. Mas ele sabe que as nossas verdadeiras cidades são sempre as cidades da nossa infância. Por isso acrescenta: «sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os paraísos perdidos. / Alguém, quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta página / lamentará as torres de cimento e o podado obelisco». A cidade de hoje será a infância de amanhã.Por tudo isto gosto imenso dos livros de Marina Tavares Dias. Com uma obstinação exemplar, ela tem vindo a reerguer a «Lisboa Desaparecida», isto é, a Lisboa da minha infância e sobretudo a Lisboa dos meus tempos de estudante, mas também a Lisboa dos meus pais e dos meus avós (com o tempo tudo se mistura, e regressamos todos à mesma pátria intemporal, à Lisboa fora do tempo, onde brincámos e aprendemos a amar). Associando a isto duas outras obsessões, mas a verdade é que as duas coisas não estão separadas: Sá-Carneiro e Pessoa, ligados aos cafés que eles frequentaram e aos lugares onde passearam e escreveram.Num desses livros envolvidos numa aura de bruma, Marina Tavares Dias restitui-nos agora «Os Cafés de Lisboa» (Quimera). Noutro dia Jorge Listopad escrevia que à saída do Teatro São João do Porto me tinha visto, no último café iluminado na noite da cidade, a escrever certamente a crónica para o dia seguinte. Não era por acaso. As crónicas escrevo-as sempre em computador. O resto (que se poderia dizer «o essencial», mas talvez isto nem sempre bata certo), escrevo-o à mão, em cadernos verdes ou azuis, nos cafés ensonados e friorentos que ainda existem pelo mundo fora.A verdade é que adoro cafés. E que tive em cafés alguns dos mais belos momentos de leitura, encontro, discussão, contemplação, escrita, estudo, violência de olhares, ternura das mãos, de que me posso lembrar. Nesses cafés que a Marina recorda no seu livro: o Monte Carlo, o Monumental, a Brasileira, o Palladium, ou, depois, a Grã-Fina, o Nova-Iorque, o Vává. E entre os motivos que tenho para gostar do Porto estão os cafés que ainda lá existem: cafés rodeados de noite e fumo, com velhos de unhas negras, prostitutas tristes, e adolescentes sufocando a tristeza num bolo de arroz e num leite quente.

Eduardo Prado Coelho
imagem: Manuel de Sousa
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a) [e não é saudades de ler Eduardo Prado Coelho porque isso, felizmente, eu posso fazê-lo sempre que me apetecer. é saudades de saber que podia ler uma crónica dele, no Público. é desse ritual que tenho saudades. desse momento em que começava a ler o jornal pela página onde estivesse a sua crónica]

b) [já há uns anos encetei uma pesquisa sobre os cafés do Porto. É um tema que me interessa muitíssimo. Se alguém tiver conhecimento de textos - por exemplo, assim, uma simples (e deliciosa) crónica como esta - é favor informarem-me. fico muito grata. obrigada. muito.]