quarta-feira, março 21

A esta luz...


«Em testamento e preparando-se para a sua viagem no navio de espelhos, Mário Cesariny quis deixar à Fundação Cupertino de Miranda, todo o seu espólio artístico e documental.


A exposição que encerra no próximo de 30 de Março pertence à Colecção da Fundação e foi dedicada à vida e obra plástica de Mário Cesariny. Poderá fazer ainda a marcação para uma visita orientada através do e-mail: museu@fcm.org.pt

Para mais informações contatar:
Fundação Cupertino de Miranda
Praça D. Maria II
4760-111 Vila Nova de Famalicão
Tel.: 252 301 650
Fax: 252 301 669 e-mail: geral@fcm.org.pt
http://www.fcm.org.pt/

sexta-feira, outubro 29

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

sexta-feira, junho 4

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte
violar-nos
tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas
portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny

imagem: Carlos Carreto