quinta-feira, junho 7

Poema

Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça


da casa, uma luz violenta.

Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.

A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia

pensa-a, enquanto

o gato imagina a elevada casa.

Eternamente a mulher da mão passa a mão

pelo gato abstracto,

... e a casa e o homem que eu vou ser

são minuto a minuto mais concretos.



A pedra cai na cabeça do gato e o peixe

gira e pára no sorriso

da mulher da luz. Dentro da casa,

o movimento obscuro destas coisas que não encontram

palavras.

Eu próprio caio na mulher, o gato

adormece na palavra, e a mulher toma

a palavra do gato no regaço.

Eu olho, e a mulher é a palavra.



Palavra abstracta que arrefeceu no gato

e agora aquece na carne

concreta da mulher.

A luz ilumina a pedra que está

na cabeça da casa, e o peixe corre cheio

de originalidade por dentro da palavra.

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.

Se toco (e é apaixonante)

a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.

Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.

Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher

com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.

A mulher da palavra. A Palavra.



Deito-me e amo a mulher. E amo

o amor na mulher. E na palavra, o amor.

Amo com o amor do amor,

não só a palavra, mas

cada coisa que invade cada coisa

que invade a palavra.

E penso que sou total no minuto

em que a mulher eternamente

passa a mão da mulher no gato

dentro da casa.



No mundo tão concreto.



Herberto Helder

1 Comment:

cs said...

ele é inteletualmente fantástico!