quinta-feira, junho 7

Impertinências

Na mesa ao lado,


um jardim de senhoras ao domingo,

associadas na ordem da má-língua

e do chá com limão,

num café de inverno, pela tarde.



Queixam-se deste tempo, bebem, fumam,

discutem seus segredos, concordam com sorrisos…



e de súbito param a olhar-te.



Despreocupada contas

― e no local a tua voz é como um sabre

que fere o inimigo ―

uma história de cama com detalhes hábeis,

uma maneira de sentir a vida

que penetra e dissolve

a luz de igreja,

a humilhação do frio nos joelhos,

os caixões fechados e as fotos do casamento.



Certo tipo de gente

sofre de invernia nos olhos,

conhece as geadas

que passam por baixo da porta,

uma porta de quarto,

ali onde a noite tem sempre

um cheiro a espera inútil,

e depois da espera aceitam-se as mentiras,

e a seguir o silêncio.



Nada deixam os anos na mesa do lado,

senão um murmúrio que envelhece e uma sombra

que cruza os lábios como uma cicatriz,

um rancor na epiderme da consciência.



A tua voz é alta e jovem

e vestida de festa, e quando se desnuda

faz com que o sol de inverno, comovido,

se detenha um instante para apoiar a fronte

nas vidraças do café.



Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster.



[poema retirado daqui, graças ao Rui Almeida, a ligação para este caminho. obrigada]

1 Comment:

Bípede Falante said...

não conhecia.
muito bacana!
beijoss