sexta-feira, abril 6

Profundamente cigana e encantadora...



Olga Mariano, presidente da Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas



Romântica e realista


“Houve um retrocesso. Quando eu era criança o preconceito não era tanto”

Recorda com carinho a D. Mercedes, professora primária que lhe ensinou as letras e os números. A ela e à irmã, Idalina, que esperou por Olga três anos para que pudessem ir juntas para a escola. “O meu pai quis assim. Para nos apoiarmos uma à outra. Eu, a caçulinha da família, era um pouco preguiçosa, gostava de procrastinar. As contas de dividir, principalmente, davam-me sono. Mas, depois, fazia tudo”, explica Olga Mariano, 62 anos, nascida em Montemor-o-Novo e registada em Vila Franca de Xira. Recorda, ainda, o dia em que, com a prima, foi do Fogueteiro a Sesimbra no seu Fiat 1100, cinza, que o pai comprou a um alfaiate, por um lote de fazendas. Transação no valor de quarenta mil escudos, àquele tempo. Olga Mariano, ainda não tinha 18 anos quando começou a tirar a carta de condução. “Até hoje o carro é o meu confessionário. Lá dentro, choro, rio, rezo, falo. Tudo. É o meu veículo de liberdade, de vitória. Meu Deus! Sou eu e o carro, tantas vezes, sozinha, estrada fora, com os meus pensamentos. E isto tem grande significado para mim”, diz Olga Mariano, com toda a força que lhe vem da alma. Alma cigana. Profundamente cigana e encantadora.

“Fui uma criança muito feliz, tive uma juventude de sonho. Casei, aos 22 anos, quando quis e com quem quis. Tive um bom casamento e três filhos. Depois da morte do meu marido, a minha vida mudou muito”. Voltou a pegar nos livros e no computador, onde faz os seus power point para dar formação. Tem CAP (Certificado de Aptidão Profissional), mas, mais importante, tem conhecimentos e o dom da palavra para os transmitir. Tem uma voz forte e segura como as mensagens que passa. Anda pelo mundo, de conferência em conferência, a defender aquilo em que acredita e a ouvir o que outros dizem sobre o seu povo, a maior minoria étnica da Europa: os ciganos.

A FOCUSSOCIAL ouviu-a. Serena, luto integral, há 18 anos, pela sua viuvez. Saia cumprida, lenço a emoldurar o rosto e a esconder o cabelo que nunca mais deixou crescer. Como manda a tradição cigana. E a sua vontade também.

Como é ser mulher cigana, em Portugal?

Não se pode cruzar os braços. Aqui ou noutro país é preciso continuar a trabalhar no sentido de abolir os preconceitos. De resto, é respeitando as nossas tradições, tentar ser e fazer o melhor possível, tanto na vida pessoal como na profissional. É nisso que acredito.

E no que mais acredita?

Acredito que as comunidades ciganas podem e devem participar nas políticas que visam a sua própria integração. Acredito que se pode ser cigano, fiel às raízes e cultura cigana e, profissionalmente, sermos o que quisermos e tivermos vocação para ser. Acredito na diversidade cultural, nos benefícios que pode trazer a uma sociedade, e acredito na individualidade e no valor de cada cidadão, independentemente da sua raça. Eu, antes de ser cigana, sou portuguesa. Nós, ciganos, temos ainda de trabalhar muito para que a mudança ocorra. Em parte, algumas coisas já mudaram, mas as mentalidades não mudam do dia para a noite.

Foi por isso que se tornou dirigente associativa, presidindo à Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas (AMUCIP)?

Não foi só por isso, apesar desta crença me acompanhar desde a minha juventude. Sou uma das cinco fundadoras da AMUCIP por destino. Quando o meu marido faleceu, passei por uma situação muito ruim. Foram-se os anéis e ficaram os dedos, como se costuma dizer. Gastei tudo com a doença dele e, depois, após a sua morte, voltei para casa dos meus pais, como aconselha a nossa tradição. Em minha casa, cobri tudo com panos negros e fui para casa Dos pais, para me apoiarem e ajudarem. Tinha três filhos adolescentes. Eu e o meu marido vivíamos da venda ambulante. Tínhamos uma vida boa. Uma casa de doutor, como dizem os ciganos. Mas, infelizmente, a vida teve de continuar sem ele e eu, na altura, tive de me candidatar ao Rendimento Mínimo Garantido. Para isso, tive de aceitar as condições, que passavam por ter de fazer uma formação, caso fosse aceite. E fui. Chorei. Não sabia o que me esperava. Queria viver o meu luto em paz, mas o certo é que tinha de sustentar os meus filhos. Fiz a formação durante um ano. Tornei-me mediadora sóciocultural, fiz um curso no Centro de Estudos e Minorias Étnicas. Foi assim que surgiu a AMUCIP.

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2 Comments:

AC said...

Gostei muito de ler a entrevista.
Um pouco por todo o mundo os ciganos, lentamente, vão despertando e entendendo que, para salvaguardar a sua cultura, têm que fazer por isso.
Deixo o link dum blog que me parece interessante:

http://cozinhadosvurdons.blogspot.pt/

Beijo :)

Marta said...

obrigada :)