terça-feira, abril 17

São duas ou três coisas




São duas ou três coisas que eu sei dela,

e nada mais além de seu perfume.

Sei que nas noites ermas ela assume

esse ar de quem flutua na janela,

como o duende fugaz que em si resume

um tempo que a ampulheta não revela:

o tempo além do tempo que só nela

navega mais que o peixe no cardume.


Sei que ela traz nos olhos esse lume

de quem sofreu e a dor tornou mais bela,

pois o naufrágio lhe infundiu aquela

vertigem que do alfange é o próprio gume.

Sei que ela vive no halo de uma vela

e queima, sem consolo, em minha cela.



Ivan Junqueira in O Tempo além do Tempo, Edições Quasi

1 Comment:

sonia said...

É muito raro eu gostar de poesia, mas quando gosto é pra valer! Essa é cheia de alma!!!