segunda-feira, novembro 14
sexta-feira, novembro 11
Jorge Fallorca na Gato Vadio
[Claudia de Sousa Dias a apresentar os livros de Jorge Fallorca na Gato Vadio]
Escritor, poeta, tradutor e Autor do blogue Nem Sempre a Lápis – crónicas, aforismos, excertos de traduções da sua autoria, música e cinema…Jorge Fallorca é um autor de escrita indisciplinada, intuitiva, errante, ao sabor das emoções e de inspiração marcadamente sensorial. [...]
Jorge Fallorca é um escritor que associa a literatura e a experiência da escrita à experiência vivida no quotidiano. Este fenómeno torna-se evidente para quem lê as crónicas de “A cicatriz do ar”. As influências literárias que mais se evidenciam nas inúmeras intertextualidades da sua escrita são: J. Luís Borges, Michaux, Herberto Helder, Aquilino Ribeiro…
A escrita de Fallorca é por excelência insubmissa e ousada de tal forma fracturante que chega a acusar grande parte dos escritores contemporâneos de superficialidade e mediatismo. Aqueles que escrevem sobretudo para as revistas de papel couché – “Couché mais jamais touché” – afirma com despudor.
N’algumas crónicas de “A Cicatriz do Ar” e sobretudo na intrigante trama policial de “A Mulher Descalça”, Jorge Fallorca projecta a atmosfera intelectual e socialmente mutiladora do Norte rural e sobretudo beirão afirmando inclusivamente na entrevista a António Cabrita (semanário Expresso 2002) o seguinte:
“A Beira, e tudo o que é Norte, as brumas, a bruxaria, a cacicagem padreca, tudo isso me asfixia, é demasiado bolorento.”
Após um interregno a que chamou de “dez anos de repouso criativo” - a que poderíamos nós chamar de Síndrome de Bartleby, um tema tão do agrado de Enrique Vila-Matas, escritor de língua castelhana a que Fallorca vai buscar a epígrafe para “A Mulher Descalça”.
Depois de publicar “Longe do Mundo”, Jorge Fallorca adopta uma escrita “muito mais narrativa e controlada”: numa palavra – contemplativa.
Fallorca é um Autor que se afirma adepto da indisciplina da urgência e cuja escrita parte da memória que sofre o processo de esquecimento e recordação, pela arte de evocar o passado, invocando-o. A arte de seleccionar a memória através da dança dos processos de supressão ou esquecimento e retenção, o autor chama-a de “arte de decantação”, como se faz ao vinho mais rico. A escrita do Autor é um processo de decantação feito com minúcia e a longo prazo, após as frases sofrerem o tempo necessário de repouso e que são transfiguradas pelo processo mental de selecção, eliminação. O Autor de que hoje tratamos é alguém que observa o real como “o caudal onde nos libertamos do fingimento, das armadilhas da sedução”.
Em A Cicatriz do Ar encontramos dois tipos de textos: 1) Bloco-Notas 2) A Cicatriz do Ar.
“Bloco-Notas é constituído sobretudo por crónicas de viagens. Trata-se de uma escrita muito vegetal, pictórica, registando as diversas gradações de luz e sombra à medida que se vai modificando a paisagem. É uma escrita errante, porque andarilha. [...]
A casa é sempre o lugar de refúgio, de intermezzo entre viagens. Outro dos elementos recorrentes nestas crónicas é o impacto dos livros no Autor e na forma como estes afectam o curso do seu pensamento que é tudo menos Morta Lacum…N’A Cicatriz do Ar” damo-nos conta da dimensão que para o Autor adquire a poesia e da grandeza dos poetas a quem chama de “os latifundiários da alma”. Mais uma vez, apercebemo-nos do que é para o Autor o processo poético de decantação e da aprendizagem ao longo da vida da “arte de se tornar poeta”; da forma como a poesia se forma a partir daquilo a que chama “momentos congelados do quotidiano” (p.23)
N’A Cicatriz do Ar presenciamos sobretudo, a alternância e, por vezes a sobreposição de relatos do quotidiano com breves instantes de poesia (p.24). Ou do bailado entre sarcasmo e nostalgia.
Onirismo e surrealismo estão presentes nos relatos de sonhos ou projecções das preocupações do dia-a-dia que afectam o estado de vigília mas se manifestam ampliadas durante o sono.
O sentido do pitoresco e a ligação com a terra são-nos dados pela presença de onomatopeia, dos regionalismos e registo de diferentes sotaques (p.30 e 31).
A poesia de Jorge Fallorca é uma poesia animista, onde, na Natureza, está normalmente projectado o reflexo da alma humana.
Para o Autor “O sul continua a ser uma transgressão” (P.33), motivo pelo qual o Algarve e o Norte de África continuam a ser lugares de eleição.
A paisagem vai mudando da desolação da Beira e do cabeço de Mortágua para o quadro do litoral algarvio. O insólito invade o quotidiano e a escrita está na linha de fronteira entre (o desejo) da partilha e o impulso à clausura.
A Cicatriz do Ar pode ser o relâmpago de uma ideia, ou o aflorar à memória de algo que estava esquecido, sepultado nas dunas do inconsciente. Ou a inspiração que surge quando menos se espera.
“Nada me enternece mais do que vê-la finalmente debruçada a brincar aos jardins nesta terra que tanto desejou e descobriu para se entregar, até me humedecer o olhar.”
O local privilegiado de observação é a casa na colina, um lugar marginal, de fronteira, entre o céu e a terra. O ninho da águia. Ou, se preferirmos, entre o mar e a montanha: a água, a terra e as pedras.
A Natureza é o outro prato da balança que permite o equilíbrio do ser humano. No outro extremo está a cultura, isto é, a porção do homem que é burilada pelo meio, pela dita civilização. Na escrita de J. Fallorca, a subjectividade das palavras é-nos dada pelas inúmeras sinestesias.
“Soa-me a nenúfares, mas tresanda a frutos.”
No que respeita aos livros, o Autor, tal como qualquer coleccionador e leitor compulsivo, vê-se a braços com a falta de espaços para guardar todos os livros: o mesmo se passando com a memória. É mais uma vez obrigado a recorrer ao processo de selecção/eliminação.
Para Jorge Fallorca o processo de escrita resume-se a aprendizagem e memória, onde o sortilégio das palavras e das letras se combinam com a paixão pela vida que se cruza com uma insaciável curiosidade cuja sede só se sacia com a leitura. [...]
Neste bloco-notas “As palavras são a casa do escritor”. O seu refúgio. O seu Graal.
A Cicatriz do Ar
Todo lo que se disse es poesía
Todo lo que se escribe es prosa
Todo lo que se mueve es poesía
Todo lo que no cambia es prosa
Nicanor Parra
Os textos de A Cicatriz do Ar são inequivocamente poesia. Móveis, flexíveis, podendo o leitor conferir-lhe o seu ritmo pessoal ao modular intencionalmente a frase com a tonalidade da voz, as pausas, criando a própria métrica, da respiração única e individual de cada um.
“A Cicatriz do Ar” pode ser lida com a voz cava de uma sibila, uma pitonisa, como quem lê um oráculo. As palavras, aqui, lançam um sortilégio, com o sabor de uma profecia. Enigmáticas, obscuras.
Ou o contrário. Pode ser lida com a voz angélica de um adolescente.
Uma poesia que poderá ilustrar o abandono dos homens pelos seus deuses, ou do povo pelos seus governantes, eternos tiranos, como na antiga Helade, antes da democracia de Péricles.
A escrita prossegue com a mesma errância do espírito, mas desta feita, pelos subterrâneos da mente. Os versos de Fallorca soltam-se, violentos e selvagens como o torvelinho de um vento do deserto, da loucura do sirocco. Por vezes, parecem pintar a destruição do corpo, a erosão causada pela passagem das areias do tempo.
A natureza, hostil, mas ainda incólume é evocada através do mar ou do vento trazendo mais uma vez à luz, a memória, soterrada.
A ânsia ou desejo de liberdade absoluta está patente na imensidão da paisagem matinal do deserto ou do mar, visto da amurada de um veleiro.
Nos últimos textos, é descrita a paixão da liberdade e dos excessos motivados pela descompressão que se segue à opressão.
O silêncio surgirá depois, constante e imenso, como a voz da natureza hostil.
“O luar por onde se escoa a vida rumo ao esquecimento”. Os últimos textos falam de morte, de uma vida que se dissolve no ar, deixando apenas um leve rasto de fumo – a cicatriz no ar.
Ou a errância de um Orfeu pelo Hades.
[...este e outro texto da Claudia de Sousa Dias,brevemente aqui ]
imagem: Miguel Carvalho
Escrito/editado por Marta 7 Terráqueos
Etiquetas: Jorge Fallorca
quinta-feira, novembro 10
quarta-feira, novembro 9
A mulher descalça
Uma mulher foi vista a estender uma corda entre duas árvores. Dizem que pendurou roupa. Dizem que estava descalça. Era de fora. Não sabiam que sabia ler.
A mulher leu o chão e escondeu o calçado. Ninguém viu. A atenção estava posta no corpo pendurado pelos pés, descalços, no galho da árvore velha. O cabeço ocultava a várzea, o rio, o lugar dos vizinhos.
Gente erodida pela vida sem casos. Uma cheia, era uma cheia. Uma seca, era uma seca. Uma tempestade, era uma tempestade e uma queimada descontrolada pelo vento, era um fogo. Usavam as palavras como os hábitos e as alfaias emprestadas. As de sempre. Poucas, simples, inquestionáveis. Não havia igreja, não havia escola, não havia cemitério. Nascia-se e morria-se. Era assim que semeavam e era assim que colhiam.
A mulher guardou o que leu no chão. Deixou os vizinhos com o caso. Mais tarde, veio em busca do calçado. Sabia que no lugar ninguém dormia, despertos no sono uns dos outros. Viu os lobos e viu as raposas. Lambiam-lhe a boca. Farejavam o que a mulher leu no chão. Leram-na e fugiram.
O corpo balançava ao sabor das garras e das dentadas. As orelhas estavam mordidas. A mulher baixou-se à altura dos lábios, esgaçados, soprou o que leu no chão. Levantou-se e procurou. O mato era todo igual. A árvore velha era o eixo. O caso era o ponteiro. O cabeço era o mostrador.
Desceu o cabeço. Atravessou a várzea. Chegou à margem do rio e cuspiu na corrente. Descalçou-se. Entrou na água. Voltou para casa vestida de limos. A mulher sentia-se entorpecida com tanta sabedoria. E adormeceu.
Quando acordou, metade do lugar fora entregue ao abandono. Os cães aliavam-se aos lobos. Os vizinhos fechavam-se em casa. A rua era território dos cegos. Palco de premonições. Sem público.
A mulher foi ao rio buscar a roupa. Debruçou-se com o relâmpago e o estrondo mostrou-lhe o raio. Desta vez, não fora um tiro. O caso mudara de figura. A mulher ficou muda.
Pendurou a roupa na corda que estendeu entre duas árvores e despediu-se das palavras. No lugar, dizia-se que estava descalça. Também era de fora. Mas não fizeram caso.
Jorge Fallorca in A Mulher Desclaça, 2011
[... excerto do livro que será apresentado no próximo sábado, na Gato Vadio, pela Claudia de Sousa Dias...]
Escrito/editado por Marta 0 Terráqueos
Etiquetas: Jorge Fallorca
Carta a Ruben A.
Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando — pela última vez — bateste à porta da casa e te sentaste à mesa
Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida
Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
— Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar — como oferta — a infância antiga
A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De rododendros délias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias
As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais
Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas
Desgarrada era a voz das primaveras
Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
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segunda-feira, novembro 7
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
[o busto de Sophia, ontem inaugurado no Jardim Botânico do Porto]
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
imagem: Egidio Santos
Escrito/editado por Marta 12 Terráqueos
Etiquetas: Sophia de Mello Breyner Andresen
11 do 11 de 2011
«No próximo dia 11 de novembro, a Galeria Colecionador Contemporâneo recebe a coletiva "ONZE", com a curadoria de Marco Antonio Teobaldo.
A galeria decidiu transformar a data 11/11/11 em uma exposição de arte e evocar a sorte que a repetição dos números pode trazer aos supersticiosos de plantão...»
[...e...a Leila Pugnaloni... está lá! vamos num instante ao Rio de Janeiro? eu queria muitooooo... :) ir...]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Desenhos; Leila Pugnaloni
domingo, novembro 6
...e nada interrompe a respiração do olhar.
Janela escancarada, emoldurada pelas dunas e a respiração das vagas; uma flor numa lata interrompe a liquidez do horizonte, para guardar as cores da tarde que me iluminam a noite
quando o frio se insinua sob as portas e adormece as garras do sono,
quando o vento se intromete entre o crepitar da lenha e o queixume das árvores,
quando uma laranja é toda a minha fortuna sobre a mesa,
quando ouço os gatos percorrem as veias do cio no telhado,
quando uma folha de papel me serve de refúgio e me devolve
ao efémero,
o silêncio cobre-nos como um manto de luz e nada interrompe a respiração do olhar.
Jorge Fallorca in A Cicatriz do Ar, pag. 78,
[...a apresentação, no Porto, é já no próximo sábado, na Gato Vadio...]
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Jorge Fallorca
Atravesso o amor, respirando
As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.
Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.
Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.
As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Herberto Helder
Escrito/editado por Marta 1 Terráqueos
Etiquetas: Herberto Helder
sábado, novembro 5
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