domingo, janeiro 29

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.


O orvalho da muita manhã.

Corria de noite, como no meio da alegria,

pelo orvalho parado da noite.

Luzia no orvalho. Levava uma flecha

pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado

loucamente

por um caçador de que nada se sabia.

E era pelo orvalho dentro.

Brilhava.



Não havia animal que no seu pêlo brilhasse

assim na morte,

batendo nas ervas extasiadas por uma morte

tão bela.

Porque as ervas têm pálpebras abertas

sobre estas imagens tremendamente puras.



Pelo orvalho dentro.

De dia. De noite.

A sua cara batia nas candeias.

Batia nas coisas gerais da manhã.

Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.

Tomava alegria no pensamento

do orvalho. Corria.



Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.

Que têm os olhos cegos como sangue.

Este corria, assombrado.

Os mortos devem ser puros.

Ouvi dizer que respiram.

Correm pelo orvalho dentro, e depois

estendem-se. Ajudam os vivos.

São doces equivalências, luzes, ideias puras.

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar



— a morte é passar, como rompendo uma palavra,

através da porta,

para uma nova palavra. E vejo

o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição

através das portas de outros corpos.

Como uma qualidade ardente de uma coisa para

outra coisa, como os dedos passam fogo

à criação inteira, e o pensamento

pára e escurece



— como no meio do orvalho o amor é total.

Havia um homem que ficou deitado

com uma flecha na fantasia.

A sua água era antiga. Estava

tão morto que vivia unicamente.

Dentro dele batiam as portas, e ele corria

pelas portas dentro, de dia, de noite.

Passava para todos os corpos.

Como em alegria, batia nos olhos das ervas

que fixam estas coisas puras.

Renascia.


Herberto Helder in "A faca não corta o fogo" Assírio & Alvim, 2008

domingo, dezembro 11

Há cidades cor de pérola onde as mulheres



Há cidades cor de pérola onde as mulheres

existem velozmente. Onde

às vezes param, e são morosas

por dentro. Há cidades absolutas,

trabalhadas interiormente pelo pensamento

das mulheres.

Lugares límpidos e depois nocturnos,

vistos ao alto como um fogo antigo,

ou como um fogo juvenil.

Vistos fixamente abaixados nas águas

celestes.

Há lugares de um esplendor virgem,

com mulheres puras cujas mãos

estremecem. Mulheres que imaginam

num supremo silêncio, elevando-se

sobre as pancadas da minha arte interior.


Há cidades esquecidas pelas semanas fora.

Emoções onde vivo sem orelhas

nem dedos. Onde consumo

uma amizade bárbara. Um amor

levitante. Zona

que se refere aos meus dons desconhecidos.

Há fervorosas e leves cidades sob os arcos

pensadores. Para que algumas mulheres

sejam cândidas. Para que alguém

bata em mim no alto da noite e me diga

o terror de semanas desaparecidas.

Eu durmo no ar dessas cidades femininas

cujos espinhos e sangues me inspiram

o fundo da vida.

Nelas queimo o mês que me pertence.

o minha loucura, escada

sobre escada.


MuIheres que eu amo com um des-

espero .fulminante, a quem beijo os pés

supostos entre pensamento e movimento.

Cujo nome belo e sufocante digo com terror,

com alegria. Em que toco levemente

Imente a boca brutal.

Há mulheres que colocam cidades doces

e formidáveis no espaço, dentro

de ténues pérolas.

Que racham a luz de alto a baixo

e criam uma insondável ilusão.


Dentro de minha idade, desde

a treva, de crime em crime - espero

a felicidade de loucas delicadas

mulheres.

Uma cidade voltada para dentro

do génio, aberta como uma boca

em cima do som.

Com estrelas secas.

Parada.


Subo as mulheres aos degraus.

Seus pedregulhos perante Deus.

É a vida futura tocando o sangue

de um amargo delírio.

Olho de cima a beleza genial

de sua cabeça

ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se

no meu pensamento quente.

Herberto Helder

terça-feira, novembro 29

Porque é de ti





Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti


que me vem o fogo.

Não há gesto ou verdade onde não dormissem

tua sombra e loucura,

não há vindima ou água

em que não estivesses pousando o silêncio criador.

Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos

originais.

Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra

a carne transcendente. E em ti

principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma

o sinal e a vinha.

Plantas, bichos, águas cresceram como religião

sobre a vida – e eu nisso demorei

meu frágil instante. Porém,

teu sinal de fogo e leite repõe a força

maternal, e tudo circula entre teu sopro

e teu amor.


Herberto Helder

domingo, novembro 6

Atravesso o amor, respirando





As barcas gritam sobre as águas.

Eu respiro nas quilhas.

Atravesso o amor, respirando.

Como se o pensamento se rompesse com as estrelas

brutas. Encosto a cara às barcas doces.

Barcas maciças que gemem

com as pontas da água.

Encosto-me à dureza geral.

Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.

Encosto a cara para atravessar o amor.

Faço tudo como quem desejasse cantar,

colocado nas palavras.

Respirando o casco das palavras.

Sua esteira embatente.

Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.

Colocado no ranger doloroso dos remos,

Dos lemes das palavras.



É o chamado rio tejo

pelo amor dentro.

Vejo as pontes escorrendo.

Ouço os sinos da treva.

As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.

É nas barcas que se atravessa o mundo.

As barcas batem, gritam.

Minha vida atravessa a cegueira,

chega a qualquer lado.

Barca alta, noite demente, amor ao meio.

Amor absolutamente ao meio.

Eu respiro nas quilhas. É forte

o cheiro do rio tejo.



Como se as barcas trespassassem campos,

a ruminação das flores cegas.

Se o tejo fosse urtigas.

Vacas dormindo.

Poças loucas.

Como se o tejo fosse o ar.

Como se o tejo fosse o interior da terra.

O interior da existência de um homem.

Tejo quente. Tejo muito frio.

Com a cara encostada à água amarela das flores.

Aos seixos na manhã.

Respirando. Atravessando o amor.

Com a cara no sofrimento.

Com vontade de cantar na ordem da noite.



Se me cai a mão, o pé.

A atenção na água.

Penso: o mundo é húmido. Não sei

o que quer dizer.

Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa

como não saber nada.

É ser puro, existir ao cimo.

Atravessar tudo na noite despenhada.

Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,

da carne.

Como para cantar nas barcas.

Morrer, reviver nas barcas.



As pontes não são o rio.

As casas existem nas margens coalhadas.

Agora eu penso na solidão do amor.

Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,

o que acompanha o amor.

Acompanha o amor algum peixe subtil.

 
Herberto Helder

sexta-feira, maio 20

Experimento então esta liberdade nova:


Experimento então esta liberdade nova: Que desejas tu saber se é verdadeiro e que modo de verdade interessa à tua interior coisa verdadeira? — O amor, respondi eu, o amor. Desejo saber a verdade do amor, respondi eu, segundo a verdade do amor.


Não está mal, pensei bem dentro de mim, enquanto andava de um lado para o outro dos dias, não está mal para começar.

Era então o amor. O amor queima as mãos, disse a minha pequena sabedoria, e as vísceras. A ciência também queima as mãos. E o medo também. Tudo queima as mãos. Precisas escolher o teu fogo.

Escolho o fogo do amor, respondi eu. E experimentei esta nova liberdade.

Estou no centro dos meus poderes — disse. — Estou no meu crime.

Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, rescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.

Mas isso mata — pensei eu.

Sim, isso mata — respondi. — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.

Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte.

Herberto Helder

Exercício Corporal III in Poesia Toda , 1953–1980, Assírio e Alvim, 1981

imagem: Lucia Messeguer

domingo, maio 1

No sorriso louco das mães


No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem

os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras. E as mães

aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões

e orgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se

nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,

vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens,

enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas.

Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras.

Elas respiram ao alto e em baixo.

São silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares

da chuva,

em volta das candeias. No contínuo

escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam

na combustão dos filhos. Porque

os filhos são como invasores dentes-de-leão

no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,

e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior

de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos

e na agudez de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,

e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa

que nenhuma morte é possível e as águas

estão ligadas entre si

por meio da mão dele que toca a cara louca

da mãe que toca a mão pressentida do filho.

E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado

por dentro do amor.

Herberto Helder

domingo, fevereiro 6

Sobre o Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

terça-feira, novembro 23

Teoria Sentada


III

A minha idade é assim - verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.
Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
com um espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
É uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.
Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.
Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
Herberto Helder in Poesia Toda, pag. 151, Assírio & Alvim, 1990

[o escritor faz hoje 80 anos]
imagem: Ana Rita Carvalho

terça-feira, outubro 19

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.



Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,



que te procuram.

Herberto Helder



[excerto do poema «Tríptico»]

domingo, setembro 5

Súmula

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

[...]

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder in «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

imagem: Carla Salgueiro

quarta-feira, setembro 2

Flash


Não te queria quebrada pelos quatro elementos.

Nem apanhada apenas pelo tacto;

ou no aroma;

ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas

na funda malha de água.

Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.

Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,

trémulo alimento entre roupa

alta,

nas camas.


Magnificiência.

Levantava-te


em música, em ferida

- aterrada pela riqueza -

a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.

Fazia tremer o mundo.


E queimavas-me a boca, pura

colher de ouro tragada

viva. Brilhava-te a língua.

Eu brilhava.

Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,

nascesse da carne única

uma cana de mármore.

E alguém, passando, cortasse o sopro

de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto

de árdua fêmea e macho

anelados entre si, criassem um órgão novo entre a ordem.

Modulassem.

E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.

Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.

Os planetas fechavam-se nessa

floresta de som unânime

pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador

da terra.


Nome do mundo, diadema.


Herberto Helder
imagem: [enviada por mail. desconheço o autor. infelizmente.]

sexta-feira, agosto 21

E peço ao vento

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite.
Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
Herberto Helder Excerto do poema Amor em visita
imagem: há vida em marta

quarta-feira, abril 22

António Gedeão e Herberto Helder


Sabes, Miguel, não gosto de António Gedeão como gosto de Herberto Helder.

Claro que não!

Como te disse, descobri António Gedeão com nove, dez anos, era ainda uma criança.

Foi na biblioteca. Descobri-o num livro. Num poema. Numa lágrima de preta.

E foram muitas descobertas numa.

Já tinha lido outros poemas. Nos livros lá de casa. No meu livro de português.

O meu livro de português tinha poemas que, ainda hoje, sei de cor e salteado, como nunca soube a tabuada.Tinha um poema pequenino, cinco linhas, talvez. E nessa altura - já te disse isto - eu achava que poemas eram poucas palavras a dizerem muitas, muitas coisas.

Nesse tempo, eu achava também que poemas eram escritos que adivinhavam coisas nossas. Talvez porque aquele poema - o do meu livro de português - tinha uma coisa que eu também tinha. E só eu sabia disso. E, então, pensei que poemas e segredos eram a mesma coisa.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a palavras para dizer, como aquele, do António Gedeão.

Dei conta que as palavras faziam música.

Nunca um poema fora, para mim, palavras para ler em voz alta.

Depois de ler lágrima de preta, achei que um poema devia ser sempre sentido em voz alta.

E achei mais: achei que um poema era uma coisa útil. Tal e qual um objecto útil que nos facilita a vida. Foi, assim, com lágrima de preta. Descobri António Gedeão e foi com António Gedeão que descobri o que era um pseudónimo. E achei aquilo divertido. E descobri que, afinal, todos temos pseudónimos dentro de nós. Que revelamos ou não.

E, essencialmente, achei que ele fez bem, porque acho Rómulo um nome feio.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez dez anos.

Eu não gosto de Herberto Helder como gosto de António Gedeão.

Descobri Herberto Helder numa livraria. Num livro. Num poema.

Num não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

E foram muitas descobertas numa.

Já antes tinha lido poemas. Nos livros, em minha casa. Nos livros das livrarias.

No meu livro de quinhentas e setenta e uma página de poemas, há um poema que me faz emudecer.Por isso, eu nunca o vou poder ler em voz alta. Só sentir.

É um poema que acontece, que teima em acontecer até ao milagre.

Daqueles poemas que mantêm segredos. Secretos, seguros.

Poemas com guelras. Poemas que adivinhavam coisas nossas.

Poemas raros de carne e rosa.

Poemas de muitas palavras, a fazer sentir coisas únicas.

Mas eu regresso sempre ao não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

Foi com Herberto Helder que descobri a poesia toda.

E achei aquilo tudo. Terno. Eterno. Violento e voraz.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a suor.

Dei conta que as palavras faziam amor.

Depois de ler não sei como dizer-te que a minha voz te procura,

eu achei que quem não o lesse, seria certamente infeliz.

Mas, depois, dei conta que isso de ser feliz ou infeliz é patético,

quando o assunto é aquele poema. E outros.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez vinte anos.

Imagem da livraria Lello: Zaclis Veiga
[texto editado em 2006, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de António Gedeão]