sábado, março 26

...queria tanto, tanto estar lá...


27 Mar - 15:00h no CCB 


«Maria Gabriela Llansol é provavelmente a mais inclassificável das escritoras portuguesas. Escreveu “nas margens da língua” e “fora da literatura”, e viveu vinte anos no exílio da Bélgica, onde colheu inspiração para uma Obra sem paralelo na literatura portuguesa.

O núcleo principal da sua Obra inicia-se com duas trilogias (Geografia de Rebeldes e O Litoral do Mundo) que ensaiam uma releitura da história intelectual e espiritual da Europa, com recurso à metamorfose ficcional de uma ampla galeria de figuras, das beguines medievais e dos místicos flamengos e ibéricos a Camões, de Hölderlin a Nietzsche ou de Bach a Fernando Pessoa. Depois disso, envereda por uma “ordem figural do quotidiano” em cerca de vinte livros reveladores de uma escrita visionária e intensa de grande originalidade, que lhe valeu por duas vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e que faz jus ao prognóstico de Eduardo Lourenço segundo o qual “Llansol será o próximo grande mito literário português, por paralelo com o próprio Pessoa”. Deixou um imenso espólio manuscrito de milhares de páginas inéditas, em curso de publicação (Assírio & Alvim).
Organização Espaço Llansol».

quarta-feira, março 9

Lugar 1 -

«Lugar 1 –
nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível. A mover-se, olhava por vezes com fixidez um sítio o mais belo de sua casa a casa toda porque toda a casa era bela e começava nesse olhar ora o tempo das crianças, ora o tempo dos homens. Mulheres, não havia outra, além dela, nunca ultrapassavam a entrada, que dava para a terra, terra de jardim onde se podiam dar passeios. Os homens ficavam contentes porque ela dizia todas as vezes não és tu que importas, é o seguinte. Certificavam-se, portanto, de que, no momento antes, haviam sido o próximo.»
(…)
O Livro das Comunidades, Maria Gabriela Llansol (Ed. Relógio d’Água)

Desviado daqui.

terça-feira, dezembro 14

Eu vou


Finais de Janeiro de 1994
eu vou.
Este eu vou é como o cabeçalho de uma carta.

Eu vou,
o meu mundo «moderno» é perturbante. Só no fim do texto eu o deveria dizer, mas o fim do texto é imprevisível - estaca subitamente. Fica dito.
Levantei-me, pois, com dificuldade, sentindo na mão uma renda, mas pesada como uma salva de prata; choveu torrencialmente durante a noite, ventou, estou ao pé da letra, mergulhada dentro da água com imagens que passam rapidamente - releio Causa Amante, e admiro.me com a sua perenidade, estou-lhe grata por me ter tirado da cama, me acompanhar no banho e ter um som que me leva para outro lugar. Parece-me que Herbais está agora em toda a parte da casa, e que um poço profundo habita Sintra. Trago meias curtas muitas vezes, este inverno. Mal cobrem os tornozelos. É sendo criança nos pés que entro no meu mundo «moderno».

O território desta casa, hoje, dia de chuva,
estremece

como uma chávena nas mãos de Deus. Apesar de frágil, acho-o belo. Faz parte da minha sobrevivência actual, é o caderno guardado onde escrevo os meus pensamentos antes de ir à vida da rua, fazer as comparas do dia, tomar um café de máquina
e ouvir
outro cliente

dizer que é sensual e sublime. Ele refere-se à música e o que diz faz parte de um diálogo que se joga para cá e para lá do balcão - a propósito de um nome, o de quem serve - , e para quem eu olho com certa surpresa por deparar com um rosto de mulher que dá parte de inocente.

«Tudo isto se passa à maneira de Verlaine», segreda-me a árvore genealógica da minha sensibilidade e sabores. Não é que eu oiça, entretida a saborear o meu café; é o que me segreda o passo cadenciado da parelha de cavalos que estaca, abrupta, em frente do «bistrot». Dizem-me ainda, cobrindo o diálogo de sedução que se passa ao lado, ao ritmo da música, ao ritmo da música de Elvis « as metáforas dos cavalos sobre o texto não são metáforas. Não é o texto que estaca como nós - tudo estaca subitamente.» Tudo o que há pára de súbito. E, constantemente, recomeça.

Eu vou.

Eu vou pensar a minha vida do exterior. [...]

Maria Gabriela Llansol in Inquérito às Quatro Confidências, pag. 1, Relógio D´Água

segunda-feira, dezembro 13

...tentando conhecer...

[passados 7 anos de ter começado a ler Maria Gabriella Llansol, conheci-a e falei com ela. Foi uma tarde inesquecível. e esta é uma das dedicatórias mais lindas que tenho num dos seus livros. porque foi verdade. nesse «dia de um de Março, dia em que nos emocionamos, tentando conhecer»]

Há duas horas que fugia ao sol...


«Há duas horas que fugia ao sol, pela estrada calva de caniços, de árvores, de pássaros e de borboletas. Apenas via moscas que pareciam imobilizadas em frente do seu nariz pela gelatina do calor e a lastimosa tira alcatroada a fluir no horizonte, a grande distância do início e a grande distância do fim. Atormentava-o a comichão nos pés descalços, produzida por uma amálgama de poeira e de suor sobre o eczema ténue. Raspava-os no solo mas o atrito tornava o calor insuportável e sentia os pés, como as costas, chapeados de lume. Olhou em redor à procura de sombra, ainda que curta e linear, para ao menos beber a sua água. Adiante, no cotovelo fincado na estrada, uma pedra alta esvaziara-se num nicho pouco profundo e Simão introduzira-se na concavidade, raso de luz. Sentou-se em breve, com as pernas abertas e as mãos a agarrarem cada pé, numa inquietude sonolenta de Buda. Via a tarde poluir-se, concentrada num sol espesso (engrossado pelos raios de luz que a ele se haviam recolhido) e com limites.»
(…)
Os pregos na erva, Maria Gabriela Llansol (Ed. Rolim)


[desviado daqui.
este foi o livro que que me abriu portas à escrita de Maria Gabriela Llansol]