sexta-feira, abril 22

A estrada branca


Atravessei contigo a minuciosa tarde


deste-me a tua mão, a vida parecia

difícil de estabelecer

...acima do muro alto

folhas tremiam

ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas

que trazemos sem que possam ser ditas:

astros cruzam-se numa velocidade que apavora

inamovíveis glaciares por fim se deslocam

e na única forma que tem de acompanhar-te

o meu coração bate


José Tolentino Mendonça,  in A Estrada Branca, Assírio & Alvim

imagem: Joel Meyerowitz

Tudo isto seria um caminho terrivelmente intimista...


[...] A Quaresma é o contrário daquilo que, às vezes, se faz passar. Uma estação tristonha e austera, onde predominam as privações e os jejuns soturnos, que ninguém nos explica de modo satisfatório. Uma quadra lilás, cheia de imperativos que nos roem por dentro, mais como uma remorso do que uma sementeira de alegria.


A Quaresma é o contrário disso. Quaresma sugere palavras vivas: conversão, reconciliação, renascimento...Quaresma é a primavera que Deus oferece à Igreja, para que todos acordemos da paralisia dos nossos invernos interiores e desatemos a florir.

Quaresma é redescobrir a juventude com uma energia que trazemos na alma, a possibilidade real de recomeçar, de ser melhor outra vez e ainda outra vez. Não é um ritual de ano a ano, é um abanão ao nosso modo de viver, para que nos desinstalemos e compreendamos que Deus não nos quer amarrados a uma ‘vidinha’ que não reflecte nada de grade ou apreciável: nem Amor, nem, justiça, nem esperança.

A Quaresma é, assim, uma aposta divina nas nossas histórias humanas, ás vezes demasiado humanas.

E por ser tão importante não é uma receita, é uma proposta de caminho (...).

Estamos em construção!

Às vezes enchemo-nos de coisas supérfluas que só atravancam. Falsos projectos, muitos preconceitos, críticas fáceis, invejas, orgulho, egoísmo qb. E terminamos como um joguete nas mãos das nossas emoções mais superficiais. (...).

Tudo isto seria um caminho terrivelmente intimista se não nos mandasse ao encontro dos outros. [...]

 José Tolentino Mendonça

imagem: Joey Williams

quinta-feira, março 17

A infância de Herberto Helder


No princípio era a ilha

embora se diga

o Espírito de Deus

abraçava as águas


Nesse tempo

estendia-me na terra

para olhar as estrelas

e não pensava

que esses corpos de fogo

pudessem ser perigosos


Nesse tempo

marcava a latitude das estrelas

ordenando berlindes

sobre a erva


Não sabia que todo o poema

é um tumulto

que pode abalar

a ordem do universo agora

acredito

Eu era quase um anjo

escrevi relatórios

precisos

acerca do silêncio


Nesse tempo

ainda era possível

encontrar Deus

pelos baldios


Isso foi antes

de aprender a álgebra


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, pag.127, Quasi, 2001

imagem: marta [na ilha de Porto Santo]

quinta-feira, dezembro 23

Atravessei contigo a minuciosa tarde

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino Mendonça

fotografia: Sonja Valentina

segunda-feira, março 22

Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração

sexta-feira, agosto 28

Os amigos



Esses estranhos que nós amamos

e nos amam

olhamos para eles e são sempre

adolescentes, assustados e sós

sem nenhum sentido prático

sem grande noção da ameaça ou da renúncia

que sobre a luz incide

descuidados e intensos no seu exagero

de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza

pois o fortuito significado dos campos

explica por outras palavras

aquilo que tornava os olhos incomparáveis


Mas a impressão maior é a da alegria

de uma maneira que nem se consegue

e por isso ténue, misteriosa:

talvez seja assim todo o amor


José Tolentino de Mendonça


[Dedicado à Claudia com um grande, grande beijinho de PARABÉNS! Tudo de BOM hoje e sempre, minha querida... e, leva as rosas, também são para ti :)]

sábado, agosto 8

Paga-me um café...


«Paga-me um café e conto-te a minha vida»

O inverno avança

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebra-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu não, tu nunca choraste

por amores que se perdem

Os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as linhas, acreditas?

e temos saudade desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois


«Pago-te um café se me contares o teu amor»

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração, p.27 e 28, Assírio e Alvim
imagem: Google

quinta-feira, abril 30

Não deixeis um grande amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha
não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendios

do mundo


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, Uma antologia da Nova Poesia Portuguesa, pag, 131, Quasi
imagem: Claudio Solera