domingo, dezembro 19

Pilar, José e o Amor

Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.

As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.

O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.

José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar

(como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.

Inês Pedrosa

[crónica publicada no Expresso]
imagem: Rui Duarte Silva

quarta-feira, setembro 29

o filme impossível

A obra mais famosa de toda a literatura portuguesa, traduzida em 37 idiomas, é o "Livro do Desassossego", desse outro eu de Pessoa chamado Bernardo Soares. Um livro perfeito porque imortalmente imperfeito. Sem princípio nem fim, sem leme nem rumo, um livro inclassificável e invisível como os deuses, nascido dos destroços do céu, feito da temperatura das nuvens e dos rasgões da alma - fragmentos contínuos que conjuram a morte e apagam o tempo. Pessoa sabia que o "Livro do Desassossego" o manteria vivo, depois. Permanecemos na memória dos que nos sobrevivem porque não terminámos - sobra sempre o que não chegámos a dizer ou fazer. Somos retalhos de temas, mágoas e iluminações. Não uma colecção de momentos - nesse caso seríamos esquecíveis como fotografias de viagem. Tudo nos empurra hoje para essa ideia de viagem permanente: sofremos um desgosto, gritam-nos que viajemos, para levarmos para longe o nosso problema e não incomodarmos o rame-rame alheio. Momento - eis o que chamamos às nossas grandezas e às nossas falhas, a essa descontinuidade anímica, agora tão em moda. O "Livro do Desassossego" é o antilivro de viagem: Pessoa chegou ao âmago do Universo sem sair de Lisboa.

O "Livro do Desassossego" tem silêncio, ruído, tédio, sexo, angústia, felicidade. Abrimos uma página ao acaso e encontramo-nos lá inteiros, tenhamos 16 ou 30 ou 70 anos. Porque Pessoa realizou essa que é a viagem difícil, pouco praticada e muito desaconselhada: pôr-se no lugar dos outros. Ser cada um dos outros. Toda a identidade advém dessa viagem dura, ousada, que é a da entrega radical: não há outra.

Não há uma ordem no livro como não há uma história na nossa vida: há nós de dor e de prazer que vêm e vão, como ondas de um mar imprevisível, e encontros desencontrados que se potenciam fora de toda a lógica das historinhas que somos instruídos para seguir. Uma vida não é uma história nem um conjunto de histórias - nunca tem um fim, deixa sempre pontas penduradas, sonhos a rodar na cabeça dos sobreviventes. As histórias parecem mudar pouco e repetir-se muito porque raramente são vividas na sua intensidade. É essa a tarefa da arte - de qualquer arte: buscar mais verdade, uma luz mais exacta, sob o horizonte da verdade visível. O resto é treta, empate, bufonaria de quem foge de entender a mensagem da cova e do caixão.

Eduardo Lourenço afirmou que Pessoa se tornou a "máquina de rezar" da cultura portuguesa - e, em simultâneo, maior do que Portugal. João Botelho ousou criar o filme impossível a partir deste livro impossível que se tornou o mais real dos livros portugueses - o mais lido, o mais amado, o mais inspirador. E o "Filme do Desassossego" soube honrar o livro que lhe deu vida: arrastou o texto para o futuro que é ainda o seu território de origem, criando um Bernardo Soares fora do tempo e fazendo de Lisboa a cidade de todas as cidades, com prédios e monumentos cubisticamente empilhados, substituindo-se ao céu - e com vadios, boémios, funcionários tristes, casais, crianças, mulheres intensas, fadistas, a voz de Caetano Veloso (que criou uma canção para o filme) nas entranhas do metro, Lula Pena, Carminho e Ricardo Ribeiro cantando na rua - e Catarina Wallenstein, numa interpretação sublime, encarnando um texto que nos fala dos passos que deve seguir "quem faz do sonho a vida".

Nunca Lisboa foi filmada de um modo tão inesquecível. Cada imagem de João Botelho é uma pintura - ele filma como Caravaggio pinta, com o mesmo conhecimento carnal da densidade das luzes e das sombras, e neste filme essa semelhança é potenciada pela subtil e intensa paleta do rosto e do corpo de Cláudio Silva. Mas não caiu no engodo fácil de fazer um filme 'bonitinho', desvirtuando o vendaval lúcido e alucinado que é o livro de Pessoa.

A Floresta do Alheamento de Bernardo Soares transfigura-se numa ópera dramática (de Eurico Carrapatoso) encenada em plena serra de Sintra - ou não fosse Fernando Pessoa o rei da nossa Baviera, tema sobre o qual Eduardo Lourenço escreveu um livro prodigioso. Este filme desassossega-nos coração, cabeça e estômago, obriga-nos a pensar tudo de novo e a chorar o velho nada das lágrimas reprimidas - ou seja, a sermos mais livres. É para isso que servem a literatura, a música e o cinema.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

[Texto publicado na edição da Única de 25 de setembro de 2010 ]

domingo, janeiro 31

à volta de Inês Pedrosa

gostei mesmo muito. a Comunidade de Leitores, com a Inês Pedrosa, correu bem. muito bem. não se falou apenas de A Eternidade e o Desejo. falou-se um pouco de tudo. tudo o que coube em duas horas de conversa. à volta dos seus livros. e de outras coisas. e a autenticidade foi o fio de prumo. a ironia, também. mas, aqui, o Miguel Carvalho resume. eu, por mim, gostei muito de a ouvir. nos olhos. olhos nos olhos. já gostava de a ler sem nunca lhe ter conhecido o timbre da voz. ao vivo. já gostava de a ler há muito tempo. sim. fiquei encantada com a genuinidade da autora de "Fazes-me Falta". [sim, Zaclis, esse de que tanto gostaste, também]

[e, é verdade, no dia seguinte, sonhei que fomos todos tomar um chá. um chá com Inês Pedrosa. no chão da minha sala. enfim! há dias, assim, em que se sonha antes de ir dormir.]

sexta-feira, janeiro 29

Sabeis porque choram os olhos?


«Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois.
O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto, cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios:
Ver e Chorar.
Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.
Porque ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.



Basta-me escutar. Escutar não tanto a superfície das conversas, mas a dor que dentro delas nada silenciosamente. Os pianistas confessam-se nas teclas, no modo de atacar as notas. Sei quem são Adriano Jordão e Theodor Paraschivescu, conheço-lhes a infância e os sonhos, porque os ouvi tocar. (...) Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão. Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. (...)».

Inês Pedrosa in A Eternidade e o Desejo, pag. 136, 137, Dom Quixote,2007

[ Sábado, dia 30 de Janeiro, às 17 horas, como de costume, na Livraria Almedina do Arrábida Shopping. A convidada de Miguel Carvalho é Inês Pedrosa. Mais um encontro na Comunidade de Leitores. Desta vez, A Eternidade e o Desejo é o livro de que se fala.]



segunda-feira, abril 6

Onde se confessam os pianistas?


«Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto, cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.
Porque ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Basta-me escutar. Escutar não tanto a superfície das conversas, mas a dor que dentro delas nada silenciosamente. Os pianistas confessam-se nas teclas, no modo de atacar as notas. Sei quem são Adriano Jordão e Theodor Paraschivescu, conheço-lhes a infância e os sonhos, porque os ouvi tocar. (...) Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão. Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. (...)».

Inês Pedrosa in A Eternidade e o Desejo, pag. 136, 137, Dom Quixote,2007
Texto a bold: fragmento discursos de Padre António Vieira
Imagem: Di Cavalcanti


[para a minha querida E.]

domingo, março 22

Fazes-me falta

Ontem, encafuada no carro, recordei, num ápice, os livros dela. Os que li. E foi a voz dela, de outra escritora, que me levou a procurá-los por entre os livros todos lá de casa. Já estiveram ordenados. E era-me fácil acha-los. Agora estão mais ou menos como eu! Não estão por ordem nenhuma. Estão.
[Logo se verá, ou não. Se será fácil. Achar-me. Também...]
[...]
«O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam».
[...]
«Queria roubar-te a obsessão, ter outra vez os teus vinte anos. Mas eu era já demasiado velho, voltava a ser novo, como as crianças, trocando um brinquedo pelo outro, respondendo ao brilho da próxima mão, existindo à superfície das coisas, táctil. A sabedoria do gozo, avessa à ciência do prazer. A felicidade esgotava-te, o sofrimento exaltava-te, nada era fácil para ti. -Como podes ter vivido tanto e ser tão leve?, perguntavas-me. Eu respondia apenas com sorrisos. Ai de ti, se descobrisses que viver demasiado é desistir da vida».
[...]
«E eis-me preso à memória escura dos teus olhos, dos teus passos saltitantes, da tua alegria convicta que a partir de certa altura começou a açucarar demasiado a minha vida. Não consigo concentrar-me. Passo os dias com os olhos sobre as letras dos livros que tenho de ler e não consigo entrar neles. E ouço muitas vezes a canção de Pascoal:
«A sombra das nuvens no mar / O vento na chuva a dançar / Uma chávena a fumegar / Tudo me falava de ti / A sombra das nuvens desceu / O céu alto arrefeceu / E o mar bravio perdeu / A luz que lhe vinha de ti.» Há quanto tempo não me arde o coração?»
[...]

Inês Pedrosa in Fazes-me Falta, Publicações Dom Quixote, 2002