quarta-feira, agosto 26

Um Mini azul escuro e um casaco vermelho


Desenganem-se. Não vou escrever sobre carros; não sei. Vou falar-vos de um carro. Um Mini, azul-escuro de estofos creme. Aliás, o único cuja matrícula ainda hoje sei de cor. Nunca mais soube uma matrícula de cor. Quando vou ao shopping, raramente, e no sistema sonoro se ouve: pede-se ao proprietário do veículo matrícula xpto para…
fico sempre num sobressalto a pensar se será o meu ou não. Adiante.
Na hora do almoço fui a um dos tasquinhos onde costumo comer qualquer coisa e apanhei o final do noticiário da RTP. Fechou com a notícia de que o Mini faz 50 anos. Acho que era isso. A dado momento deixei de ouvir. Não só porque o som estava estranhamente muito baixo mas porque, num ápice, fui remetida para a minha infância.
A minha mãe tinha um Mini. Azul escuro, de estofos claros. E dizia-nos a mim e ao meu irmão [os mais novos ainda não tinham chegado] que não podíamos comer gelados lá dentro, por causa dos estofos. No dia em que o carro chegou – lembro-me perfeitamente – novinho em folha, eu e a minha mãe fomos à costureira. Às vezes a costureira ia lá casa. Aliás, a penúltima prova do meu casaco vermelho, de pelo, quentinho, tinha sido feita num dos quartos que tinha um espelho enorme, o do guarda-vestidos. Estávamos no mês de Setembro e as aulas começariam, em breve, no colégio. Aquele colégio do baloiço azul todo debruado a ciprestes verdes.
Nesse dia, em que o Mini da minha mãe chegou, ela estava mesmo contente e fomos à Candidinha. Acho que fomos fazer tudo o que a minha mãe podia fazer naquele fim de tarde ao volante do seu Mini.
Estacionou e lá fomos nós, de mão dada, à costureira mais faladora do mundo. A minha mãe fez mais uma prova do seu saia-casaco e eu vesti o meu casaco vermelho, a três quartos, já pronto a levar para casa. Vesti-o sob o olhar de ternura da minha mãe e o olhar atento da Candidinha.
A Candidinha, feliz, a abotoar-me o casaco, até à golinha, enquanto dizia: quem é que vai ficar tão linda, tão linda, quem é? O casaco tinha uns botões vermelhos, redondos como cerejas e eu a olhar ora para o espelho ora para o casaco, com uma imensa vontade de chorar.
A minha mãe, agora da minha altura, a procurar os meus olhos e eu com eles rasos de água e a minha mãe a perceber, a perceber, até que as lágrimas me caíram cara a baixo e, num instante, já soluçava.
A Candidinha a perguntar e, então Martinha, dói-te alguma coisa, filhinha? Tas tão bonita, de casaco novo, o que é que te dói? O que é que a menina tem?
E eu, ainda cheia de soluços, dentro do meu casaco de pelinho vermelho, cheia de calor, disse à minha mãe, muito baixinho, que não queria aquele casaco. E a minha mãe, a perguntar-me porquê, se era tão lindo e me ficava tão bem. E eu, ainda mais baixinho, disse-lhe que não gostava dos bolsos, que os bolsos não eram assim, eram de papel. A última vez que eu tinha vestido o casaco, os bolsos eram de papel, presos com alfinetes a toda a volta e, agora, nem bolsos de papel nem alfinetes e eu tinha sonhado com o casaco, assim, com bolsos feitos de papel de jornal, onde com jeitinho, haveria de conseguir meter as mãos.

domingo, maio 24

Errar é humano. E o que haveria de ser?


Errar é humano. Diz-se com frequência. Geralmente como remate desassisado e conclusivo sobre algo irremediável ou não. Não será um pleonasmo? Será que os bichos se enganam? Será que as pulgas erram o salto? As aves erram as rotas? Os macacos erram o gesto?
Errar é humano! O que haveria de ser?
Erra-se quando não atingimos o resultado esperado, o objectivo delineado. Erra-se quando as consequências do que fazemos causam dor, dúvida, angustia, falha, ruína?
Quando construímos carreiras, relações, projectos de todas as latitudes – pessoais e profissionais – sobre pressupostos falsos? Sob a nossa verdade?
Quando é que erramos? Ou será simplesmente a ilusão a culpa do erro. Logo nós, porque nos iludimos. Não sei. Há quem culpe o coração. Outros, a burrice. E o assunto arruma-se.
Onde está o código desta estrada? Onde está o manual dos contratempos? O tratado das emoções? A enciclopédia dos sentimentos?
A primeira vez [fora de casa] que tive a noção clara de que o erro tinha punição, foi na escola primária. Com uma conta de dividir. Matemática. Pura objectividade. Mais tarde, apercebi-me dos erros que tinham concerto aparente. Uma vez, na casa dos meus pais, parti uma peça muito valiosa. Os cacos não eram muitos. Colou-se. Não se nota, disse a minha mãe, mas perdeu todo o valor. Aquilo ficou-me.
Entre os 14 e os 18 anos, descobri os erros emocionais. Tipo aqueles que cometemos tomados de paixão [faltar às aulas para ir jogar flippers; sair de casa, sem autorização, para ir dançar;] tão ou mais nociva do que o álcool e os seus efeitos aleatórios. Mas que ainda hoje, porque nem sempre aprendemos com os erros – não troco por nenhum gim tónico bem servido! Inícios. [Às vezes apetecia-me que a vida fosse apenas uma eterna sucessão de inícios.]

Depois, nas aulas de Português descobri claramente os erros de interpretação. «Não. O autor não quer dizer isso, o autor quer dizer...». E nós anotávamos o que o professor dizia sobre o que o autor quis dizer. Naquele tempo, eu não imaginava que os erros de interpretação seriam dos mais recorrentes durante a vida. Pensei que só teriam utilidade no teste sobre as Folhas Caídas, do Almeida Garrett. Mas não.
Acho que só aos 30 anos, mais coisa menos coisa, descobri os erros irremediáveis. Daqueles que não tem concerto. E onde se pode aplicar, levianamente, errar é humano! Pois haveria de ser o quê? Insisto. É uma afirmação sem siso.

Errar é humano, é embaraçoso, é cómico, é demolidor, é trágico. É um direito!
Errar a porta de casa é embaraçoso e cómico. Tentar abrir furiosa e insistentemente uma porta que não é a nossa, até nos perguntarem o que estamos ali a fazer, é de se fugir e nunca mais colocar os pés numa reunião de condomínio. É de ponderar mudar de casa, até!

Errar numa teoria, pode até trazer prestígio e reconhecimento. Por muito tempo que a teoria em vigor, esteja errada, já serviu. Foi verdadeira, até ao momento de se provar que já não o é. A construção do edifício cientifico é feita desse cimento de verdades destronadas. De verdades temporárias. Ou não.
Na ciência, o erro é, tantas vezes, uma bênção. Do erro faz-se luz. Há erros de uma longevidade secular. De uma utilidade impressionante.

O Erro de Descartes, por exemplo. Dei graças ao Manuel Damásio. É que sou do género emociono-me, logo existo. E andei tantos anos por me explicar! Andei tanto tempo a pensar que no lugar da cabeça me tinha nascido um coração. De cabelos claros, com olhos, boca, ouvidos. E um ou dois neurónios que, mesmo assim, metiam férias, quando mais eram precisos. Um horror!

E na vida, qual é o papel do erro? Cometer erros tanto na esfera pessoal como profissional pode ser trágico. Mesmo que daí se parta para uma nova verdade. Ou não.
Será que quando se segue o coração se erra ou, simplesmente, se desacerta? Não assertar é mais leve do que errar. E sempre dá a impressão de se estar a jogar às setas. Por exemplo.
E jogar às setas sempre é mais parecido com viver. Digo eu. Assim, como quem não encontra o alvo. Ou as setas. Tanto faz.
Na matemática diz-se do erro que é o valor absoluto da diferença (desvio) entre o valor exacto e o valor calculado ou registado por observação.
E na vida, o que é o erro? Um cálculo mal efectuado? Uma observação mal registada?
Um desvio? Seguramente. Um desvio. Ou um desacerto.
Entre muitos valores e outros tantos sonhos.

[Errar é humano. É demasiado humano.

E o que haveria de ser?]

segunda-feira, maio 11

A tabela a loba e eu

Eu nunca fui uma aluna brilhante. Muito menos no secundário. As minhas notas iam do 19 ao nove. Tinha um pouco de tudo. Só estudava o que gostava. E nem era bem estudar. Era ler a matéria e tirar notas que acabava sempre por perder. Os cadernos eram verdadeiros tratados observacionais-poéticos, com sumários pelo meio. Uma desgraça! Nessa altura a única coisa que me brilhava, eram os olhos. Na leitura dos poemas. E no caminho para a biblioteca. E quando via o Filipe. Concedo. Mas dizia eu que não fui uma aluna brilhante. E quando digo brilhante, digo constante. Com método. Ou seja, com boas notas a tudo. Como a Leonor , por exemplo. Que tanto admirava. E admiro. Felizmente, ainda está na minha vida. Constantes. Como as notas dela. Eu era aquele tipo de aluna [quando tiver filhos apago o blog] que passava os dias encafuada em leituras, que ninguém me pedia. Passava as aulas de Matemática e de Físico-Química a escrevinhar e a anotar as palavras novas, que os professores iam dizendo. A professora de físico-química, por exemplo, passava os dias a dizer a palavra análogo. E era um tanto distraída com as experiências. Aquilo quase nunca corria bem. Uma vez, a colher de combustão derreteu. Excesso de química! Talvez por isso, eu gostasse tanto dela. Afinidades. Mas era a tabela periódica a única coisa a fascinar-me, naquelas aulas. E lá ia eu à procura do inventor da Tabela e da sua história.Coisas que não interessavam para o caso. Nem nunca a pergunta saiu no teste. Obviamente! Depois, perdia tempo infinito à volta dos nomes dos elementos da Tabela. Quanto mais estranhos, mais me seduziam. E lá me punha a escrever e a descrever personagens com nomes tipo manganês, cádmio, ósmio, dúbuio, actínio. Enfim, fazia dos metais e não-metais verdadeiros heróis! Nem o bronze, a prata e o ouro escapavam a um papel secundário! De acordo com as suas características. Sabia-ás de cor e salteado, como nunca soube a tabuada!
A tabela periódica ajudou-me a compreender a composição do mundo. Até do amor. Da química e da falta dela. E os alquimistas conquistaram-me para sempre. Mas nada disto me foi alguma vez perguntado no teste de físico-química. Daí os apontamentos marginais, no miolo dos cadernos. Ninguém os entendia. Só eu. Eram de uma inutilidade tremenda.
Entre as aulas onde, de facto, eu estava em tempo real, ou seja, sintonizada com o professor, contava-se a de História. Nas aulas de História, eu não precisava ir atrás da história. Era a História que vinha atrás de mim. E eu à frente. Por vezes. Com devoção. Sumérios, fenícios, cartagineses. Ainda hoje sei o nome do rei da Suméria e qual a função do patési. Detive-me na escrita cuneiforme difundida por toda a Mesopotâmia. Nos pictogramas que, depois, os fenícios passaram a alfabeto fonético, com 22 letras. Antes do nosso.
Depois, Roma, Grécia. O tanto que me apaixonei por elas, ali, nas páginas dos manuais. O tanto que as imaginei. O tanto que me fizeram compreender o porquê do mundo. A importância das civilizações fundadoras. Nas artes , nas leis, na religião, na economia, na arquitectura. Tudo. Fixei coisas improváveis. Coluna: base fuste e capitel. Entablamento: arquitrave, friso, cornija. Ordens dórica, jónica e coríntia. Romanas: toscana e compósita. E por aí fora. Os deuses todos. Ou quase. A minha cabeça, como se fosse Olimpo. A Grécia Antiga do helenismo. Minóicos e micénicos. Tudo cá dentro. Sem esforço.
Eu, em Roma, a rememorar isto tudo. Em cada esquina. Conhecimentos adolescentes à flor da pele. Ansiosa. Emocionada. O Coliseu, o Fórum. Os imperadores e os seus Arcos do Triunfo. Todos.Mas foi numa das salas dos museus capitolinos que os meus olhos mais brilharam! A capa do meu livro de História a três dimensões! Real. Carregada de significado. Lupa. A Loba. Ali, à minha frente. Lendária e tocável. Século V a.c. Mais real, só se o bronze etrusco respirasse!

[esse bronze resistente, sonoro e dúctil da "minha" Tabela periódica]


imagem: daqui [não consigo editar a que eu tirei :(]

quarta-feira, abril 1

A mulher que não vende a SMS

Lê o jornal na diagonal, a correr. Só os títulos e os leads. Não dá para mais. Só as notícias suficientes do café matinal. Antes de começar a trabalhar. De repente, estanca no anúncio, a bold:
Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

Não quer acreditar no que lê. O mundo é um lugar estranho. E belo. Está tudo louco. Não quero viver aqui! Pensa. Que a outra venda a morte em directo, o outro as desilusões da vida, a outra a virgindade. Pronto! Mas um SMS!!!!
Perdido nestes pensamentos, incrédulo, pede ao senhor do lado:
- importa-se de ler, este anúncio, por favor. Em voz alta. Rápido. Que eu já estou atrasado.
O senhor lê.
E o senhor que leu, em voz alta, rápido, sem se engasgar, pergunta-lhe:
- é de hoje o jornal?
E o homem sai para a rua, absolutamente perturbado com o anúncio, abanando a cabeça, lentamente, ora para a direita, ora para a esquerda. Quando volta a parar, mesmo em cima de um outdoor, colocado à frente do seu nariz:

Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

A cidade emite aquele anúncio a uma velocidade vertiginosa! Em tudo o que é suporte publicitário, aparece o anúncio da SMS. Mupis, autocarros, fachadas de prédios devolutos! Até os jornais gratuitos e todas as revistas do quiosque fazem menção à venda da SMS. Até mesmo uma avioneta, sobrevoa a cidade com uma faixa ondulante a promover a venda. Entre os transeuntes, o homem dá, agora, conta – estupefacto - de uma autêntica brigada publicitária que coloca cartazes, calmamente, em todas as paredes desocupadas da cidade.
Mesmo naquelas em que é proibido fazer afixações.
Sobe ao terceiro andar do seu escritório e todos os colegas tem na mão um panfleto anunciando a venda da SMS! Todos, pela manhã, retiraram das caixas do correio a insólita mono folha. Todos! Mesmo daquelas que tem um autocolante amarelo a dizer: por favor não deixe publicidade.

No escritório comentavam, entre si, que no Ebay a licitação da SMS vai numa fortuna! E que quem teve a ideia de a vender, não precisaria de trabalhar mais. De repente, ficaria rico, milionário, talvez. Era ainda manhã e o valor da SMS já tinha ultrapassado todas as expectativas.
Entretanto, outros comentam que as televisões andam desesperadas para saber quem colocou o anúncio, quem accionou a campanha. Querem fazer um directo. Quem se teria lembrado de vender a SMS, o que diriam aquelas letras e sinais, qual era a mensagem.
Como, quando, quem, onde, porquê?
De repente, alguém informa, que no Twitter um homem seguia outro homem que por sua vez conhecia… quando, a rádio anuncia:

Campanha da venda da SMS cancelada. Encontrado homem que a roubou.
Pertence a uma mulher pobre que declarou não a querer vender.
Alegou que a SMS não tem preço. Para além de que ninguém sente o que ela sente ao lê-la.
É para ela. É única. É eterna.
Tem exactamente o tamanho do seu punho fechado.

[e foi assim que as SMS entraram para a Bolsa de Valores]

quarta-feira, março 25

Pede-me, antes, números. Algarismos.

Pegam na caixa com aparente cuidado. É uma caixa de cartão. Diz frágil. Em letras garrafais, vermelhas. Para que todos vejam. E eu vi. Incrivelmente. Mesmo não tendo de pegar nela. É uma caixa de cartão. Sem alma dentro. E é assim que eu me sinto. Sim, sim. Estas coisas que me dão e tu bem sabes como depois tenho de me retirar. Devagar. Fazer um retiro, lá no sítio onde Edgar Morin reflecte sobre o mundo. Mas eu não quero reflectir sobre nada. Até porque, eu hoje, não quero ver. «Ver é estar doente dos olhos». Nem sei como vi a caixa. E a mim dói-me o mundo e os olhos e as pernas. Vim de pé, no metro. A fingir que via tudo à minha volta. Mesmo que numa cidade estrangeira me canse menos andar, estou cansada. E frágil. Imagina que já comprei dois cabos USB! Perdi-os. E precisava deles. E não tenho falado ao telemóvel. Para que a bateria não se gaste. Porque se tiro o carregador da mala, fica esquecido. Esqueço-me de tudo o que preciso. Ainda bem que não tenho as chaves do hotel. Ainda bem que não tenho chaves nenhumas. Ainda bem que não preciso de mim. Assim, frágil.



Vês como estou frágil! E agora queres que decida se continuo ou não continuo no conservatório. Se o piano é o eixo do meu desassombro. Que decida se é cedo ou tarde para recitar os poemas da Hilda Hilst. Se vamos ou não vamos a um restaurante. Se vou ou não vou para Angola. Como voluntária. Desculpa. Ainda não te falei de Angola? Mas também não falei a ninguém. Só a mim. E à ONG para onde enviei o e-mail com a ficha de candidatura. Chamaram-me. E, agora, não posso ir, sem tomar todas as decisões que me esperam. Coisas sensatas. Nada a ver com isto. Se fosses o Jorge Palma, compreenderias melhor. Talvez. E pedes-me para [re] começar a curta-metragem. E que decida quando. E eu, frágil, insuportavelmente frágil, quase no dead line da loucura. Como o pêndulo de Foucault. Eu, a precisar de ficar quieta como como a pedra da Roseta no British Museum. Protegida, intocável, muda. Mas legível. Como a caixa de cartão sem alma dentro. A dizer FRÁGIL, em letras garrafais. Para que possam, se necessário, pegar em mim com cuidado.


E agora queres que decida a vida toda num quarto de hora. Que decida, aqui, entre reuniões inconclusivas, se vamos ou não vamos viver numa casa junto à praia. Se o jardim, terá dálias e begónias nos canteiros. Se as bicicletas podem ficar encostadas ao limoeiro. Atrás. Junto à porta da cozinha. E queres que decida, assim frágil, irracionalmente frágil, se o mar terá barcos, ao longe, nas manhãs claras e húmidas. E pedes-me que decida qual o vestido que vou trazer, na viagem de regresso, quando voltarmos de Buenos Aires. E que decida a cor dos teus olhos, amanhã. Quando os teus olhos são da cor do tempo que faz. E eu, sem chave nenhuma, a dizer-te que, frágil, me esqueço de tudo o que preciso. Só não me esqueço de estar aqui.


Por isso, não me peças algoritmos. Pede-me, antes, palavras. Letras. Letras não! Que o alfabeto também se esgota. Pede-me números. Algarismos. Ou estrelas. Que deve ser a mesma coisa. Eu não percebo nada de matemática nem de astronomia. Mas sei o infinito. Sei o inesgotável. Sei que, mesmo frágil, em letras garrafais, vermelhas, te posso dar, sempre, números. Um número por dia. [Como se fossem comprimidos contra a fragilidade] Ou estrelas. E se as do mar forem poucas, vamos ao céu buscar mais. Pode ser?


[Ainda hoje. Porque amanhã, posso estar irremediavelmente frágil.


E os teus olhos estão de outra cor.]