quarta-feira, janeiro 8

Soneto

    Não pode Amor por mais que as falas mude
    exprimir quanto pesa ou quanto mede.
    Se acaso a comoção falar concede
    é tão mesquinho o tom que o desilude.
   
    Busca no rosto a cor que mais o ajude,
    magoado parecer aos olhos pede,
    pois quando a fala a tudo o mais excede
    não pode ser Amor com tal virtude.
   
    Também eu das palavras me arreceio,
    também sofro do mal sem saber onde
    busque a expressão maior do meu anseio.
   
    E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
    em verdade, em beleza, em doce enleio?
    Olha bem os meus olhos, e responde.



António Gedeão

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