quinta-feira, janeiro 2

Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego


Hoje o professor Geraldo não precisava de me explicar porque me deu 200 anos. Na altura, eu tinha 25 e pedi explicações. Por esses dias eu não sentia o peso que o tempo tem. Hoje sinto. Ontem no escritório, meia dúzia de pastas de arquivo e eu vergada aos anos, incrédula, a contá-los pelos dedos para que não houvesse engano. E contei duas vezes os dedos das mãos, muito lenta, como se fossem de chumbo. Um peso tremendo, cheio de questões e urgências. Eu não era assim, aflita com o peso dos ponteiros do relógio, silenciosos como uma nave no espaço. Não era assim, a transbordar de espanto como se nunca tivesse permanecido aqui e não soubesse do tempo a passar por detrás de todos os relógios da casa grande, rostos sem nenhum ruído de desespero. Não era assim, tão inquieta e, no entanto, não sabia esperar. Agora que aprendi, devia estar mais sossegada. Mas não. Há um desajuste muito sério nesta minha aprendizagem. Sei esperar mas ainda não sei estar em sossego. Agora, ando com o tempo mão na mão, nascido muito mais alto e muito mais leve do que eu, a minguar-me todos os dias, como se fosse uma criança a crescer ao contrário. Ando assim, em cuidados com o tempo, cheia de vontade de não lhe voltar a tocar, nem em bicos dos pés, nem em cima do banco, como quando fazia para lhe dar corda.
Marta

 

1 Comment:

Maria Cruz said...

Obrigada por me fazeres parar e ler-te sem pressas! :) Agora sim, já posso ir. :)