domingo, junho 19

Põe as minhas mãos no centro da tua loucura


Põe as minhas mãos no centro da tua loucura

Libertaremos o tempo da lei que o aprisiona

e saíremos para o espaço estelar sem queda

ou regresso

Faz de mim o avesso do teu partir

Juntos completaremos o círculo da terra,

possuíremos a ciência aberta

da seiva e dos cometas,

assim naturais,

compactos com a presença do mínimo

Da tua loucura cantarei versos de lúcida

transposição da morte, respirações capazes

de produzir encantamento entre as pedras

Recolheremos as constelações e os peixes,

e quando os olhares se voltarem para ver

anunciaremos um país livre de bússolas

e de mapas,

um país exacto de pássaros,

um país de auroras e violinos e tudo

Vasco Gato

segunda-feira, janeiro 24

Primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

Vasco Gato

sexta-feira, dezembro 10

Traço comum

descalço-me de sombras para chegar a ti
as linhas do meu rosto são claríssimas
nelas não vês o velho, a criança, o adulto
vês apenas o traço comum
que é onde eu procuro a tua mão
na transparência da minha palavra inteira
Vasco Gato

imagem: Helena Almeida

segunda-feira, agosto 23

um dizer ainda mais puro


imagino que sobre nós virá um céu

de espuma e que, de sol em sol,

uma nova língua nos fará dizer

o que a poeira da nossa boca adiada

soterrou já para lá da mão possível

onde cinzentos abandonamos a flor.


dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.


diz-me que ainda há versos por escrever,

que sobra no mundo um dizer ainda puro.


Vasco Gato