domingo, agosto 30
Elegia da lembrança impossível
O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislau del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.
Jorge Luis Borges in Obras Completas, pag. 127, Teorema, 1989
imagem: Leila Pugnaloni
Etiquetas: Jorge Luis Borges, livros da minha vida, Poemas que sinto
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9 Comments:
que bonito!
e essa a versão que ando à procura.
essa e a biografia do Neruda.
csd
O que não daria eu pela memória de retocar só um pouquinho o passado...o que não daria eu pela memória de experimentar o que nunca experimentei...
Jorge Luis Borges é uma dádiva, a tal ponto que nos faz escrever coisas que nós nunca pensaríamos escrever...
Muitos beijinhos!!!
Ninguém como Borges para nos lembrar a memória...
Por alguma coisa ele é único.
Lindo!
ou
Da importância de ter memórias!
Bjs
o teu blogue é viciante!
http://adevidacomedia.wordpress.com/
Marta,
só para dizer que te deixei mais uns desafios no meu blog de leituras (http://jornaldamaggie.blogspot.com/).
Bjs
. sublime e bel.íssimo .
. nada mais me ocorre de momento, que não permanecer aqui ,,,
. um beijo, enorme, sempre .
Borges é o melhor de todos do século passado,sem dpuvida.Havia tempos uqe não vinha aqui.Seu blog está ótimo!Parabéns!Um abraço.
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