quarta-feira, março 6






Eu não fui desde a infância
Como outros eram...não olhei
O que outros viam...não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias...
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura...meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor...
E tudo o que eu amei, amei em solidão...
Então - na minha infância - no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem...
Da torrente, da nascente...
Da rubra fraga ascendente...
Do sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal...
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou...
Do trovão, do temporal...
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.

Edgar Allan Poe


 

 [na página 199 do livro Edgar Allan Poe Obra Poética Completa, Tradução e Notas de Margarida Vale de Gato, Tinta da China, 2009]

imagem: Filipe Abranches




1 Comment:

JOSÉ RIBEIRO MARTO said...

Excelente ... Um prazer passar por aqui , Marta!
Um abraço
José