segunda-feira, dezembro 5

Uma biblioteca é um labirinto


Uma biblioteca é um labirinto. Não é a primeira vez que me perco numa. Eu e o meu pai temos isso em comum. Penso que foi isso que lhe aconteceu. Ficou perdido no meio das letras, dos títulos, perdido no meio de todas as histórias que lhe habitavam a cabeça. Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias. O meu pai, tenho a certeza, perdeu-se nesses mundos e agora ninguém lhe consegue interromper a leitura.


Li, numa das minhas tardes passadas no sótão, um conto de um escritor argentino chamado Borges, sobre um labirinto que é um deserto. Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mas um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.



Afonso Cruz in Os livros que devoraram o meu pai, pag, 27, Caminho, 2011 

5 Comments:

Bípede Falante said...

Não conheço. Gostei muito do trecho e do título.
beijoss :)

Funes, o memorioso said...

Que página tão bacoca esta, em que se atribui a Borges a descoberta de um labirinto que é um deserto, incutindo subliminarmente no leitor ignorante a ideia de que um labirinto que é uma biblioteca (ou um simples livro) é uma descoberta própria.
A imagem da Biblioteca como um labirinto está tão gasta como o tudo vale a pena quando a alma não é pequena, do Pessoa. De tão usurpados, são hoje conteúdos vazios que já não significam nada.
O que me espanta é que «isto» ganhe prémios literários. Das duas uma: ou o júri que atribui os prémios é composto por ignorantes; ou o autor pertence ao clube dos escritores que se atribuem prémios uns aos outros.

PS- a frase «Li, numa das minhas tardes passadas no sótão, um conto de um escritor argentino chamado Borges» é um delírio. Se for propositada, é um recurso estilístico genial. Falar de Borges como se fosse um escritor desconhecido qualquer que se encontra por acaso no sótão e que fala de labirintos é fabuloso. É como se eu escrevesse: outro dia, a vasculhar as estantes da casa dos meus pais encontrei num livro de um poeta chamado Pessoa esta frase magnífica: tudo vale a pena, quando a alma não é pequena. As potencialidades literárias deste recurso são espantosas, mas, repito, apenas se ele tiver sido utilizado de forma consciente. Precisava de ler o livro todo para o perceber. Se Afonso Cruz estava a falar mesmo a sério e se imaginava, de facto, a revelar ao mundo Jorge Luis Borges, então a sua frase é séria candidata a estupidez do ano.

Marta said...

Prof. Funes,

que emplastro!

...e se fosse conjugar o verbo emplastrar no pretérito imperfeito?

...este livro é excelente! aproveite e compre-o!

...e,por favor, desampare-me a loja...até ao Natal... do próximo ano! pelo menos! apre!

Marta said...

bjo. querida Bípede :)

Funes, o memorioso said...

Eu emplastrava,
Tu emplastravas,
Ele emplastrava,
Nós emplastrávamos,
Vós emplastráveis,
Eles emplastravam.

Satisfeita?