E dizia,
Porque havia de guardar só para si que em vez do quimdim, desenformara o sol. Brilhante. Porque não havia de telefonar a dizer
-estou tão feliz! Nem imaginas.
O quindim e o lombo assado com ameixas, divinos. E o vinho e os sorrisos e o calor da casa. Tudo misturado. Os quadros, a música, as lombadas dos livros nas prateleiras. Tudo felicidade. Metia impressão. Era ofensiva. Tanta felicidade. Em detalhes.
Porque havia de desmentir que aqueles sorrisos anónimos, pousados no seu rosto desmaquilhado, a faziam feliz. Porque havia de guardar só para si que uma lua imensa lhe fazia os dias claros. Que os pontos, as vírgulas, os sinais de exclamação e os parêntis, lhe davam uma insondável felicidade enquanto escrevia. Porque o havia de esconder?
E os vasos nas janelas, com malvas floridas! Que felicidade! O multicolor das frutas na mercearia; os pessegueiros a florirem, como o do longínquo quintal, na Páscoa da sua infância.
As tiradas do João da Ega, nos Maias, então...Eram capaz de lhe pôr o dia inteiro feliz. Se as recordava de manhã. O cheiro dos jornais e do café. O amarelo antigo dos eléctricos. O rio na foz. E a maresia no parapeito das janelas acesas.
A areia na ampulheta, capaz do mistério do tempo envidraçado.
Imensas felicidades avulso. Tão estranho.
O despertar sem relógio. Os olhos no tecto branco do quarto. Um dia mais, por adivinhar. E a gratidão de ter os olhos abertos. Os braços abertos. O espanto de pensar em tudo isto. E ficar feliz. Feliz. Qual Amélie Poulain com os dedos mergulhados no saco de feijões secos, na mercearia. Viu o filme seis vezes. Um exagero tremendo. Só por causa dessa cena. Comovia-se com a descoberta do guionista! Uma sensação que imaginava só sua. Uma sensação de felicidade.
diziam outros.


