No porta-luvas do carro tenho algumas fitas, estão embaralhadas, são músicas antigas, que gravei por aí em vários lugares, tecnicamente insuportáveis, cada qual uma espécie de embrulho em si e à parte.
Fico no primeiro cassete que apanho. Qualquer coisa servirá. Amanhã não farei grandes coisas, mas preciso desse amanhã, pelo menos hoje. Ouço o chiado que revela a seleção de músicas antigas, copiadas de velhos discos para a fita.
A voz de Vera Lynn (quem foi Vera Lynn?) enche o carro. Subo os vidros das janelas, ligo o ar-refrigerado para ouvir, no final de ontem, o começo do amanhã:
We´ll meet again,
don´t know where,
don´t know when,
but I know we´ll meet again
some sunny day
A canção foi relançada nos anos 60 num filme de Stanley Kubrick, final de Doutor Fantástico*, bombas nucleares explodindo, o balé de cogumelos atômicos, o fim da história. E o aceno para o dia onde nos encontraremos outra vez, não sabemos onde nem quando,mas nos encontraremos num dia ensolarado.
Começa a amanhecer, vejo a primeira fatia de luz cortar a linha do horizonte, lá longe, no mais longe do mar. A sensação agora é que estou sozinho, sobrevivendo de um mundo que acabou. Só não sei, ainda, se eu também acabei. Talvez o embrulho do pai tenha vindo apenas para me dar lucidez, a consciência da lucidez que substitui a fome que eu deveria sofrer, o sono que deveria sentir, a memória que eu deveria esquecer.
Carlos Heitor Cony in Quase Memória, pag.236, Palavra, 2005
* O título original do filme é Doctor Strangelove. Em Portugal chamou-se Doutor Estranhoamor
segunda-feira, outubro 25
Quase memória
Escrito/editado por Marta 3 Terráqueos
Etiquetas: Carlos Heitor Cony, Escritores
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