segunda-feira, novembro 5

Rosto da muralha



um homem com o coração nas mãos

correu pela borda da noite

para oficiar as trevas


havia uma guerra anunciada

e três guerras por resolver

em toda a parte

tinham mudado os sinais

um homem abraçado à sua própria sombra

estendia o coração

para resolver o caminho

era difícil perceber

por que começavam os dias a meio das noites

era difícil perceber

a noite única que testava

no lugar do coração antigo

um homem vai bêbado de seu próprio sangue

e mal ouve a voz de anunciar princípios

perdeu a capacidade do gesto

não consegue deixar o rasto

de sua mão de sangue na face da muralha

as mãos já não são mãos

mas um tecido de veias

que pingam no útero da floresta

um homem arrancou o seu próprio coração

p'ra fundar a noite

encontrar o caminho

descobrir a voz

construir a fala

deixar um gesto de prata

no rosto da muralha


Ana Paula Tavares


imagem:  Mestre Júlio Resende

1 Comment:

Marli Terezinha Andrucho Boldori said...

Que belo poema.As palavras escolhidas com sensibilidade para dar o toque da paixão.Poetas são magos que nos passam emoções através de sua escrita.Um grande abraço!