segunda-feira, outubro 15

A gratidão é o que há de menos efémero na nossa vida



(...) Um livro que se escreve é sempre uma confissão espontânea; por depravada que pareça uma narrativa, o livro não corresponde a um acto depravado, porque é um acto de liberdade. O que...leva a escrever é a convicção de realizar algo de bom mesmo quando os méritos são poucos ou o orgulho é soberano. O escritor espera sempre que a inspiração supere a sua impotência e o faça merecedor da graça divina da arte e da vontade para a exercer.


No meu caso, aqui solicitado, todos os meus livros são um exercício de confissão espontânea. Os defeitos que se notam neles, defeitos que transbordam da espontaneidade (falta de espírito académico, lirismo fútil e fluência de palavras que despistam os leitores dos elementos inconscientes), são uma prova de insubmissão. A insubmissão pode significar amor, assim como a submissão. A insubmissão, em certas vidas criativas, comporta um sadismo pueril que nunca é completamente extirpado das sociedades, mesmo as mais civilizadas. A confissão espontânea que é o livro de ficção, em geral beneficia desse sadismo pueril. Exerce uma apaixonada agressão sobre o mundo porque se sente motivo de amor. A confissão seduz pelo facto de deixar à margem da submissão um pequeno toque de insubmissão.

Quero dizer que, ao despertar desta consagração que me fazem, eu sou insubmissa. A gratidão é uma experiência subjectiva, como a fé. É mesmo um acto de fé que a substância dum ser humano nunca pode mudar. Nela não há incerteza; é feita de pertinência, faz parte da interpretação dos meus livros; faz parte do nosso juízo sobre as obras humanas calçadas com a botinha de bronze, emergência da imortalidade mas que o não é. A gratidão é o que há de menos efémero na nossa vida. Por ela, somos provavelmente menos livres, mas também menos sós. Isto é bom.



Agustina Bessa-Luís
in Contemplação Carinhosa da Angústia, pag.195, Guimarães Editores

[...no dia em que a imensa Agustina faz 90 anos. parabéns!]

Fotografia: Egidio Santos


7 Comments:

João Menéres said...

Eu podia ter postado um pequeno manuscrito,mas o tempo não tem dado para tudo !

Um beijo.

Marli Terezinha Andrucho Boldori said...

Que belo trecho, fiquei motivada para ler mais....Gostei.Um abraço!

Luis Eme said...

sim.

TERESA SANTOS said...

Parabéns, e um imenso Obrigada.

Beijinho.

Marta said...

pois não, João! Como entendo!

Marta said...

Marli,
se por este breve trecho procurar ler Agustina...
então,
mesmo sem tempo,
já valeu muito muito
eu andar por aqui.
obrigada.
abraço,

Marta said...

beijinho, Teresa.