Pegam na caixa com aparente cuidado. É uma caixa de cartão. Diz frágil. Em letras garrafais, vermelhas. Para que todos vejam. E eu vi. Incrivelmente. Mesmo não tendo de pegar nela. É uma caixa de cartão. Sem alma dentro. E é assim que eu me sinto. Sim, sim. Estas coisas que me dão e tu bem sabes como depois tenho de me retirar. Devagar. Fazer um retiro, lá no sítio onde Edgar Morin reflecte sobre o mundo. Mas eu não quero reflectir sobre nada. Até porque, eu hoje, não quero ver. «Ver é estar doente dos olhos». Nem sei como vi a caixa. E a mim dói-me o mundo e os olhos e as pernas. Vim de pé, no metro. A fingir que via tudo à minha volta. Mesmo que numa cidade estrangeira me canse menos andar, estou cansada. E frágil. Imagina que já comprei dois cabos USB! Perdi-os. E precisava deles. E não tenho falado ao telemóvel. Para que a bateria não se gaste. Porque se tiro o carregador da mala, fica esquecido. Esqueço-me de tudo o que preciso. Ainda bem que não tenho as chaves do hotel. Ainda bem que não tenho chaves nenhumas. Ainda bem que não preciso de mim. Assim, frágil.
quarta-feira, março 25
Pede-me, antes, números. Algarismos.
Vês como estou frágil! E agora queres que decida se continuo ou não continuo no conservatório. Se o piano é o eixo do meu desassombro. Que decida se é cedo ou tarde para recitar os poemas da Hilda Hilst. Se vamos ou não vamos a um restaurante. Se vou ou não vou para Angola. Como voluntária. Desculpa. Ainda não te falei de Angola? Mas também não falei a ninguém. Só a mim. E à ONG para onde enviei o e-mail com a ficha de candidatura. Chamaram-me. E, agora, não posso ir, sem tomar todas as decisões que me esperam. Coisas sensatas. Nada a ver com isto. Se fosses o Jorge Palma, compreenderias melhor. Talvez. E pedes-me para [re] começar a curta-metragem. E que decida quando. E eu, frágil, insuportavelmente frágil, quase no dead line da loucura. Como o pêndulo de Foucault. Eu, a precisar de ficar quieta como como a pedra da Roseta no British Museum. Protegida, intocável, muda. Mas legível. Como a caixa de cartão sem alma dentro. A dizer FRÁGIL, em letras garrafais. Para que possam, se necessário, pegar em mim com cuidado.
E agora queres que decida a vida toda num quarto de hora. Que decida, aqui, entre reuniões inconclusivas, se vamos ou não vamos viver numa casa junto à praia. Se o jardim, terá dálias e begónias nos canteiros. Se as bicicletas podem ficar encostadas ao limoeiro. Atrás. Junto à porta da cozinha. E queres que decida, assim frágil, irracionalmente frágil, se o mar terá barcos, ao longe, nas manhãs claras e húmidas. E pedes-me que decida qual o vestido que vou trazer, na viagem de regresso, quando voltarmos de Buenos Aires. E que decida a cor dos teus olhos, amanhã. Quando os teus olhos são da cor do tempo que faz. E eu, sem chave nenhuma, a dizer-te que, frágil, me esqueço de tudo o que preciso. Só não me esqueço de estar aqui.
Por isso, não me peças algoritmos. Pede-me, antes, palavras. Letras. Letras não! Que o alfabeto também se esgota. Pede-me números. Algarismos. Ou estrelas. Que deve ser a mesma coisa. Eu não percebo nada de matemática nem de astronomia. Mas sei o infinito. Sei o inesgotável. Sei que, mesmo frágil, em letras garrafais, vermelhas, te posso dar, sempre, números. Um número por dia. [Como se fossem comprimidos contra a fragilidade] Ou estrelas. E se as do mar forem poucas, vamos ao céu buscar mais. Pode ser?
[Ainda hoje. Porque amanhã, posso estar irremediavelmente frágil.
E os teus olhos estão de outra cor.]
Escrito/editado por Marta 10 Terráqueos
Etiquetas: Crónicas de uma marta anunciada, fragilidades
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